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Observatório do Campo Maranhense

Produto Educacional apresentado para o PPGHIST/UEMA

Ditadura e Questão Agrária

O Maranhão Contemporâneo sob a ótica da Modernização Dependente.

Apresentação do Projeto

Este website é resultante da tese de doutoramento MODERNIZAÇÃO DEPENDENTE E DITADURA EMPRESARIAL-MILITAR: O Observatório do Campo Maranhense como ferramenta para o ensino da questão agrária no Maranhão contemporâneo, em desenvolvimento pelo Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual do Maranhão (PPGHIST/UEMA).

Ele tem como público-alvo professores e alunos do 8º e 9º anos do Ensino Fundamental, constituindo-se em uma importante ferramenta para a difusão e discussão sobre a relevância da questão agrária no contexto ditatorial no Maranhão, bem como suas continuidades e rupturas na realidade estadual.

O site conta com duas partes principais: uma voltada diretamente aos docentes, com aprofundamento teórico-historiográfico sobre a modernização dependente no Maranhão e possibilidades pedagógicas para uso do site; e outra voltada à aplicação nas aulas de história, com informações e conceitos sobre a realidade agrária maranhense no contexto da ditadura e seus reflexos na atualidade.

Páginas Mais Acessadas

Explore os conteúdos, acervos históricos e materiais pedagógicos com maior destaque no Observatório.

Interativo

Mapa da Violência no Campo

Mapa interativo com levantamento histórico dos conflitos e vítimas no campo maranhense.

Acervo

Fontes para o ensino de História

Tabelas, relatórios e documentos históricos sobre projetos agropecuários e empresas na área da COMARCO.

Conceitos

Dicionário de Palavras e Termos

Glossário com conceitos fundamentais para compreender a questão agrária, camponeses, grilagem e conflitos.

Artigo Didático

Uma "bovinocracia" no Maranhão

O avanço das pastagens, a concentração fundiária e a expropriação dos trabalhadores rurais durante a ditadura.

Teoria

Modernização Dependente e Ditadura

Aprofundamento teórico-historiográfico sobre as dinâmicas de territorialização do capital no Maranhão.

Ensino

Possibilidades Pedagógicas do Site

Sugestões, práticas didáticas e roteiros sobre como explorar o Observatório com turmas de 8º e 9º anos.

Mapa da Violência no Campo

Mapa interativo dos conflitos agrários no Maranhão.

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Painel do Professor

Acesse os materiais de apoio e o aprofundamento teórico-historiográfico para suas aulas.

A modernização dependente no contexto da Ditadura Empresarial-militar no Maranhão
Aprofundamento teórico sobre as dinâmicas da modernização dependente e seus impactos.
Por uma educação para a emancipação: contribuições da pedagogia histórico-critica para o ensino da questão agrária no Maranhão
Aprofundamento teórico-metodológico.
Possibilidades pedagógicas do Observatório do Campo Maranhense
Abordagens sobre como utilizar o mapa em sala de aula.
Uma abordagem interdisciplinar por meio de ferramentas tecnológicas: o Observatório do Campo Maranhense
Uso de ferramentas tecnológicas em uma abordagem interdisciplinar.

Painel do Aluno

Acesse abaixo os materiais de apoio para as nossas aulas sobre a questão agrária no Maranhão.

Cronologia da Modernização Dependente no Maranhão
Explore a linha do tempo interativa (1964–1985) e acompanhe os principais marcos do avanço do capital e dos conflitos agrários no estado.
Uma "bovinocracia" no Maranhão
O avanço das pastagens, a grilagem de terras e a expropriação dos trabalhadores rurais durante a modernização dependente.
O veneno está servido
Os impactos do uso de agrotóxicos no campo maranhense e a luta dos trabalhadores rurais pela saúde e pela terra.
O caso da fazenda Maguary: posse da terra e política no Maranhão
Um estudo sobre a disputa pela posse da terra e as relações políticas envolvidas no conflito da fazenda Maguary.
Lideranças Camponesas sob ameaça: a trajetória de Manoel da Conceição
A história de vida e resistência de Manoel da Conceição e das lideranças camponesas do Maranhão diante da violência e da perseguição política.
Modernização dependente no Maranhão: a questão da mineração
Estudo sobre o avanço do capital e seus reflexos no desenvolvimento do estado e nos conflitos agrários.
Modernização dependente no Maranhão: a questão da terra
Estudo sobre a estrutura fundiária e a luta pela terra no Maranhão.
A Reforma Agrária a partir do caso Maranhense: um sonho interrompido
Estudo sobre a reforma agrária e os conflitos no campo maranhense.
Dicionário Histórico-biográfico da Ditadura Empresarial-militar no Maranhão
Material de apoio com os principais conceitos estudados em sala de aula.
Fontes para o ensino de História da questão agrária no Maranhão Contemporâneo
Acervo documental, manifestos, relatos e registros históricos para pesquisa e ensino sobre a questão agrária no Maranhão.

A modernização dependente no Maranhão

A questão da mineração

Assista o documentário a seguir:

O preço da modernização

O documentário que você acabou de ver traz um pouco dos reflexos do processo de avanço da exploração mineral no Brasil. Provavelmente você já ouviu falar da Vale, ela é uma empresa privada de capital aberto que tem como principal acionista a Mitsui & Co sediada no Japão, e é responsável pela exploração dos minérios (ferro, cobre, ouro, níquel, entre outros minerais críticos) em Canaã dos Carajás, Parauapebas e Curionópolis no Pará e pelo transporte desse produtos, cortando diversos municípios no Maranhão, comunidades que são diretamente impactadas, como é possível observar no documentário.

Tal como a questão da terra (ver: ), a exploração mineral no Pará compõe o projeto modernizador encabeçado pela . A exploração mineral, ao lado da agricultura e pecuária, é destacada como áreas prioritárias nos Planos Nacionais de Desenvolvimento, principalmente no , em que são delineadas as áreas específicas para atividade mineral na região Norte e Nordeste.

No Nordeste e na Amazônia, respectivamente, seriam criados o Programa de Polos Agrícolas e Agrominerais da Amazônia (POLAMAZONIA), o Programa de Áreas Integradas do Nordeste (POLONORDESTE), que visava:

"permitir ação concentrada do Governo e do setor privado, e para permitir tirar vantagem de economias de escala, economias externas, economias de aglomeração (ou seja, de relações de complementaridade entre diferentes projetos)" (Brasil, 1974, p. 43).

Áreas de atuação do POLONORDESTE E POLAMAZÔNIA

Fonte: II PND, 1974

Clique nas imagens para visualizá-las em tamanho real.

Como se pode observar nos mapas, para as regiões Norte e Nordeste a ideia era criar um conjunto de projetos voltados para a pecuária, a agricultura, a extração de madeiras e minérios. No Maranhão, criava-se um corredor de colonização (primeiro mapa) que se integrava com a estrada de ferro que escoava os produtos minerais extraídos no sudeste do Pará (segundo mapa).

Assim, o documento fazia referência à criação de um:

"complexo Mínero-Metalúrgico da Amazônia Oriental, compreendendo o esquema integrado Carajás - Itaqui (minério de ferro e siderurgia), o conjunto bauxita-alumina-alumínio (Trombetas-Belém) e inúmeros outros empreendimentos associados ao aproveitamento do potencial hidroelétrico da região Araguaia-Tocantins (São Félix e Tucuruí)." (Brasil, 1974, p. 49).

No entanto, a mineração ganhará mais destaque ainda no III Plano Nacional de Desenvolvimento (1979) diante dos impactos causados pela crise do petróleo (1974). Durante o governo de João Figueiredo (1979-1985), houve um aprofundamento do interesse pela exploração mineral, com destaque para a pesquisa desses minerais e da tecnologia necessária para extraí-los, principalmente pela expectativa de aumentar as exportações do setor e melhorar a balança comercial. Nesse sentido, foi amplamente incentivada a participação do setor privado, buscando aumentar a produtividade e efetivar “projetos de investimentos já decididos ou em execução” (Brasil, 1979, p. 79), como era o caso do complexo Mínero-Metalúrgico da Amazônia Oriental.

Portanto, em 24 de novembro de 1980, seria instituído, pela Lei nº 1.813, o , que previa a atuação em diferentes frentes por meio do avanço sobre as “terras livres” da região amazônica. Entre as áreas de atuação estabelecidas, constava:

[...] I - Serviços de infraestrutura, com prioridade para:

  • a) o projeto da Ferrovia Serra de Carajás - São Luís;
  • b) a instalação ou ampliação do sistema portuário e de outros investimentos necessários à criação e utilização dos corredores de exportação de Carajás;
  • c) as obras e instalações para a criação e utilização de hidrovias com capacidade para transporte de grandes massas;
  • d) outros projetos concernentes à infraestrutura e equipamentos de transporte que se façam necessários à implementação e ao desenvolvimento do Programa Grande Carajás;
  • e) o aproveitamento hidrelétrico das bacias hidrográficas;

II - Projetos que tenham por objetivo atividades de:

  • a) pesquisa, prospecção, extração, beneficiamento, elaboração primária ou industrialização de minerais;
  • b) agricultura, pecuária, pesca e agroindústria;
  • c) florestamento, reflorestamento, beneficiamento e industrialização de madeira; aproveitamento de fontes energéticas;

III - outras atividades econômicas consideradas de importância para o desenvolvimento da região (Brasil, 1980, p. 01).

Portanto, a definição do Programa Grande Carajás (PGC), em sintonia com a definição do Programa de Polos Agrícolas e Agrominerais da Amazônia (POLAMAZONIA) e com o III Plano Nacional de Desenvolvimento, definia como áreas prioritárias: a exploração da jazida da Serra dos Carajás pela Companhia Vale do Rio Doce; a construção da Ferrovia Carajás-Itaqui e do porto de Ponta da Madeira em São Luís, para funcionar como corredor logístico; e a construção da Usina Hidrelétrica de Tucuruí (UHT). A imagem a seguir aponta as áreas de atuação do Projeto Grande Carajás (PGC).

Áreas de influência do Projeto Grande Carajás na Amazônia Legal

Fonte: LaTierra, 2021 apud Malheiro et al, p. 32

Clique na imagem para visualizá-la em tamanho real.

O projeto se instituiu em uma área de 10.719 ha, somando os espaços do porto, da ferrovia e da mina, permitindo à CVRD apropriar-se de uma intensa faixa de terra no Pará e no Maranhão. Dirigido pela CVRD, as obras tiveram início em 1978 e depois foram integradas ao programa Grande Carajás, recebendo prioridade de investimentos do governo federal. As atividades tiveram início no ano de 1985.

Ainda no setor de mineração, deve-se destacar também a implementação do Consórcio de Alumínio do Maranhão (ALUMAR), que se originou de uma associação entre a ALCOA alumínio S/A e a Billiton Metais S/A (pertencente ao Grupo Shell). A fábrica teve suas obras iniciadas em 1980, contava com o investimento de 1,5 bilhão de dólares, e começou a operar em 1984, com uma capacidade de 1 milhão de toneladas de alumina por ano e 350 mil toneladas de alumínio por ano.

Em 2024, o sistema norte, que abriga Carajás, produziu 177,5 milhões de toneladas de minério de ferro, conforme dados divulgados pela Vale (antiga CVRD), e espera que até 2030 chegue em 200 milhões de toneladas. Em 2025, a empresa voltou a ser a maior produtora de minério de ferro do mundo, tendo como principal importador a China.

No entanto, o volume das riquezas produzidas em Carajás e escoadas pelo porto de Ponta da Madeira em São Luís não traz benefício à vida das pessoas que vivem nas regiões impactadas pela atuação da empresa, já que as populações não fazem parte desse projeto de desenvolvimento dependente. Pelo contrário, o que sobrou para elas foi a expropriação de suas terras e de seus meios de subsistência, como é possível observar no documentário apresentado no início deste texto.

Além dos impactos gerados pela expropriação de terras, dos meios de subsistência e das mortes causadas pela ferrovia que segue sem proteção por onde passa no estado, a cadeia de produção mineral afeta ainda a qualidade do ar em São Luís. Isso gera impactos diretos na saúde das pessoas que vivem e trabalham na região de atuação das empresas na ilha, além de produzir gases causadores do aquecimento global, como é possível observar nos vídeos a seguir.

Impactos socioambientais em São Luís

Fonte: Brasil de Fato, 2024

No primeiro vídeo é possível observar o crescimento alarmante nos níveis de poluição do mar e do ar presentes na cidade de São Luís, resultado, principalmente, da atuação das empresas de mineração. No segundo é apresentado o impacto direto desses altos índices de poluição em uma comunidade próxima ao distrito industrial da capital Maranhense.


Referências

BOTELHO, Joan. Conhecendo e debatendo a história do Maranhão. São Luís: Gráfica e Editora impacto, 2018.

BRASIL. Decreto-Lei nº 1.813, de 24 de novembro de 1980. Institui regime especial de incentivos para os empreendimentos integrantes do Programa Grande Carajás. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 25 nov. 1980. Seção 1, p. 23841.

BRASIL. Presidência da República. II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND): 1975-1979. Brasília, DF: IBGE, 1974.

BRASIL. Presidência da República. Secretaria de Planejamento. III Plano Nacional de Desenvolvimento, 1980-1985. Brasília, DF: SEPLAN, 1979.

GISTELINCK, Frans. Carajás, Usinas e Favelas. São Luís: Minerva, 1988.

INFOMONEY. Vale: produção de minério de ferro em Carajás pode subir a 200 mi toneladas em 2030. [S.l.], [s.d.]. Disponível em: Acessar link. Acesso em: 6 jul. 2026.

MALHEIRO, Bruno Cezar; MICHELOTTI, Fernando; MASCARENHA, Rayssa; SABINO, Thiago. Dinâmicas regionais da mineração em Carajás: da pilhagem de matéria e energia aos múltiplos territórios em resistência. In: WANDERLEY, Luiz Jardim; COELHO, Tádzio Peters (Org.). Quatro décadas do Projeto Grande Carajás: fraturas do modelo mineral desigual na Amazônia. Brasília, DF: Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, 2021. p. 22-139.

O GLOBO. Com 336 milhões de toneladas em 2025, Vale volta a ser maior produtora de minério de ferro do mundo. Rio de Janeiro, 28 jan. 2026. Disponível em: Acessar link. Acesso em: 6 jul. 2026.

A modernização dependente no Maranhão

A questão da terra

Observe a imagem:

Mapa de Exportações dos estados do Brasil

Mapa de Exportações dos estados - Poder360

Fonte: Poder360

A imagem acima destaca os principais produtos exportados pelo Brasil em 2023, nela é possível identificar a predominância de produtos de origem agropecuária e extrativista. A concentração da exportação em produtos do setor primário da economia é predominante na história econômica nacional. Esse padrão vem sendo reproduzido ao longo dos diferentes contextos históricos do capitalismo global (mercantil, industrial e financeiro).

A atual fase vivenciada no capitalismo mundial, que tem seus primórdios após a Primeira Guerra Mundial (1939-1945) é caracterizada pela predominância do capital financeiro sobre os demais. Mas a concentração do capital no setor financeiro depende de uma constante expropriação de populações inteiras de suas terras, de direitos, e das condições de existência ambiental e biológica, pois, só assim esse capital pode se expandir e se concentrar cada vez mais nesse setor financeiro.

Essa expansão, por outro lado, garante o surgimento e a manutenção de burguesias em diversas regiões do mundo, garantindo uma teia hierárquica em que o capital flui das nações dependentes às imperialistas, das massas de trabalhadores ao capitalista financeiro.

O que se entende por modernização dependente no Brasil é, portanto, um conjunto de mudanças que permitiu o aprofundamento da influência desse capital financeiro no país ao mesmo tempo em que garantia a manutenção da condição de dependência ante ao cenário internacional.

Portanto essas mudanças incluíram um forte processo de expropriação das populações do campo, indo de encontro a concepção da “terra livre” e, portanto, um direito compartilhado, de quem nela vivi e produz; e atribuindo-lhe o valor de capital que pode ser rentabilizado, ou seja, pode negociado inclusive em bolsas de valores. Essa expropriação da terra veio acompanhada de outras, como dos meios de sobrevivência, como o acesso a água, produtos do extrativismo sustentável, e ao meio ambiente proporcionador de vida saudável.

No entanto, como falamos, esse capital financeiro se expandia em coexistência com a manutenção de determinadas estruturas políticas e sociais, que contribuíam para seu aprofundamento, o contexto nacional da segunda metade do século XX é um exemplo disso.

Naquele contexto há uma intensificação das disputas pela terra, em resposta a isso os que viviam nas áreas em disputa começaram a se organizar e fazer frente aos ataques, orquestrados por - interessados em lucrar com a venda da terra - e empresas nacionais e estrangeiros - que queriam expandir suas atividades.

A luta dos trabalhadores será revigorada pelo sonho da reforma (ver ), que vinha a muitos anos sendo defendida por movimentos do campo e que fazia parte do plano de reformas do governo João Goulart (1961-1964). Todavia, o golpe empresarial-militar de 1964, em sintonia com o processo de modernização dependente vivenciado naquele contexto, tratou de pôr fim a possibilidade de distribuição da terra, criando uma lei que ao invés de promover a reforma agrária esperada, criava a categoria de “empresa rural”, que na prática introduzia uma lógica agroindustrial que beneficiava grandes produtores.

Na prática o que a fez foi garantir que se aprofundasse o processo de expansão da fronteira agropecuária, com o avanço da produção agroindustrial e favorecendo uma fração de classe, ao mesmo tempo em que se garantia o avanço do capital financeiro.

No Maranhão esse processo foi facilitado e acelerado pela (Lei Nº 2.968 de 1969) ao permitir a venda das terras devolutas, sem licitação, e com baixo custo. Apesar da lei determinar um limite de área para a aquisição de terras públicas – três mil hectares – ela permitia a aquisição de terras por sociedades anônimas, o que permitia a grupos privados a aquisição de um território muito superior aos limites iniciais.

Desse modo se constrói, no estado, toda uma estrutura que visava a comercialização dessas terras, o que na prática permitiu a regularização de áreas griladas, e a expropriação em massa dos camponeses que viviam e produziam nas áreas vendidas pelo estado.

A produção dessa estrutura só foi possível devido a manutenção de uma política oligárquica, que, por um lado, mantilha as disputas entre grupos locais; e por outro, garantia a reformulação do Estado por dentro, adaptando-o, por meio de leis e decretos, ao projeto de modernização dependente. Desse modo, essa particularidade local garantiu que as transformações pudessem ocorrer sem muita oposição, já que a ditadura perseguiu e cassou os direitos políticos de quem se posicionava contra o processo, e os grupos políticos hegemônicos– como –, mesmo que disputassem o controle sobre a condução do estado, se mantinham alinhados com o projeto de modernizador.

Quantidade imóveis rurais de acordo com o tamanho da área (1960 - 1985)

Quantidade imóveis rurais de acordo com o tamanho da área (1960 - 1985)

Fonte: Censo agropecuário de 1985 (IBGE, 1988), elaboração própria.

Como é possível observar através do gráfico, no período entre 1960-1985 a concentração fundiária mais que dobrou nos estabelecimentos maiores que 50 hectares. Essa terra, foi transformada em capital, garantindo a manutenção da renda a uma elite agrária nacional, que pode lucrar com comercialização e expansão da produção agropecuária voltada principalmente à exportação. Mas, concentrando o capital em um setor industrial multinacional e financeiro, que pôde vender produtos industrializados como maquinários e agrotóxicos, e lucrar com a concessão de empréstimos e a especulação, transformando a produção agrícola em ativos que podem ser comercializados (rentabilizados) no mercado financeiro.

Terra e produtos da agropecuária no mercado de ações

BrasilAgro (AGRO3)

Atua na aquisição, desenvolvimento e venda de propriedades agrícolas.

Ver Cotação

SLC Agrícola (SLCE3)

É uma das maiores comercializadoras de grãos do país.

Ver Cotação

Portanto, no atual contexto do capitalismo global, produtos que são fundamentais para a existência humana são transformados em mercadorias, tendo seu valor controlado por interesses de grandes corporações privadas e investidores, preocupados apenas com o lucro.

Dica de leitura

Livro: Dicionário de Conceitos e Temas Econômicos para Jovens
Autor: Werbeth Serejo Belo

Nessa obra o autor apresenta alguns dos principais conceitos utilizados para a compreensão da realidade econômica na atualidade. Por meio de uma linguagem simples o autor dialoga com o leitor sobre a aplicação e o contexto de formulação desses conceitos, tão fundamentais para o estudo das conjunturas socioeconômicas mundiais. Essa obra pode auxiliar você a compreender muitos dos termos aqui utilizados, e permitir que você aprofunde ainda mais os seus estudos.

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Referências

  • FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. 413 p.
  • FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/UFRJ, 2010. 388 p.
  • MARANHÃO. Lei Nº 2.968: Lei de Terras do Maranhão, 17 de junho de 1969. São Luís: ALEMA, 1970.
  • MORAES MENDES, Paulo Leandro da Costa. Ditadura Empresarial-Militar no Maranhão e ensino: o dicionário histórico-biográfico como ferramenta pedagógica. 2021. 173 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Estadual do Maranhão, São Luís, 2021.

Reforma agrária, um sonho interrompido

Reforma agrária, um sonho interrompido

Conteúdo sobre a reforma agrária no Maranhão.

A Reforma Agrária a partir do caso Maranhense: um sonho interrompido

Veja o vídeo a seguir:

Conflito agrário: Apreensão das famílias em Vila Nova dos Martírios e São Pedro da Água Branca

Fonte: TV Assembleia Maranhão/ You Tube

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Fonte: CPT, 2026

Você acabou de assistir um vídeo que retrata o avanço da produção de eucalipto na região de São Pedro da Água Branca no Maranhão e o impacto na vida das pessoas que vivem ali. Essa região tem sido historicamente palco de intensos conflitos, que resultaram em diversas mortes no campo ( por: Manoel Odinei, "Fia" e Antônio; José Martins de Souza; Onze posseiros não identificados). Além disso, como se pode observar na imagem acima, os números dos conflitos agrários no Maranhão estão entre os mais elevados do Brasil, alcançando o topo da lista no ano de 2025. Mas por que esses casos continuam acontecendo? O que está por trás da manutenção dessa estrutura agrária excludente e violenta?

No fim dos anos 1950 e início dos anos 1960, a reforma agrária se tornou uma demanda ampla e defendida por diferentes forças sociais, que se unificavam na defesa da luta por terra em diferentes regiões do país, o que se transformou em uma das principais pautas no campo brasileiro. O crescimento desse movimento foi favorecido, de um lado, pelo ambiente de redemocratização e defesa de ampliação da democracia com o fim do Estado Novo (1937-1945); e de outro, pelo contexto da Guerra Fria, principalmente diante das condições enfrentadas pelos países latino-americanos.

Naquele contexto, diante da influência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), foi criada, em 1954, a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB), que garantiu uma atuação conjunta dos movimentos camponeses e, portanto, mais força política, por meio da intensificação de sua luta, com ações de resistência, manifestações, greves, entre outros.

No Maranhão, o movimento em defesa da reforma agrária tem seu ponto de partida com a II Conferência Nacional de Trabalhadores Agrícolas realizada em São Paulo no mês de setembro de 1954. Na ocasião foi deliberada a criação de comissões regionais para difundir os resultados da Conferência e debater o tema da reforma agrária, e a partir disso foi fundada no Maranhão a Comissão Estadual de Reforma Agrária ainda naquele mesmo ano. Os membros da comissão percorreram diferentes regiões do estado formando agremiações locais.

Diante da violência enfrentada pelos camponeses maranhenses, ao terem suas roças destruídas pelo gado, ao serem expulsos das terras em que viviam há décadas por grileiros, ou ainda cobrados para produzirem nessas mesmas terras, rapidamente começaram a se organizar em associações. E em 1956 na Conferência Estadual para Estudos de Reforma Agrária, realizada em São Luís, foi fundada a , ligada à ULTAB. A organização tinha como primeiro presidente José Augusto do Nascimento.

Em fevereiro de 1958 foi realizada a II Conferência Agrária do Maranhão, que buscava fortalecer a ATAM com o incentivo à criação de novas associações locais, discutir sobre o aumento dos conflitos no campo e defender o direito de propriedade. A seguir é possível observar o cartaz de divulgação da conferência.

Ilustração divulgada pela Tribuna do Povo

Ilustração divulgada pela Tribuna do Povo

Fonte: Almeida, 2015, p. 41

O debate sobre os direitos dos camponeses e da Reforma Agrária ganhava bastante espaço no debate público naquela ocasião: muitos partidos políticos, importantes personalidades e associações fizeram, inclusive, um abaixo assinado em apoio à realização da II Conferência Agrária do Maranhão (Ver nas Fontes: Ao povo Maranhense).

A chegada de João Goulart ao poder, em 1962, colocou ainda mais a reforma agrária no centro do embate político. Jango era contrário à implantação de uma reforma agrária mais radical, por meio de desapropriações sem indenização. Assim, defendia como proposta a desapropriação de terras com pagamento a longo prazo, na forma de títulos da dívida agrária.

Em 1963, João Goulart sancionou o Estatuto do Trabalhador Rural (ETR), que estabelecia o direito à sindicalização, aposentadoria e férias para os trabalhadores rurais, direitos que até então só eram garantidos aos trabalhadores urbanos.

Naquele mesmo ano, surgiu a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), que pretendia aglutinar as principais federações de trabalhadores rurais no país. Essa organização buscava subordinar as associações ao Estado, assim as organizações locais eram obrigadas a serem reconhecidas. No Maranhão, em fevereiro de 1964 foi fundada a Federação dos Trabalhadores Rurais, que absorvia toda a estrutura da ATAM e buscava integrar seus mais de 30 mil associados.

Mesmo com as críticas à redução da autonomia das organizações dos camponeses no Maranhão diante da obrigatoriedade de compor a CONTAG, essa ampla aliança dos camponeses no Brasil por meio da atuação direta do governo João Goulart garantia mais força à pauta da Reforma Agrária.

A reforma agrária, como era defendida pelos movimentos das populações do campo, no entanto, ia de encontro aos interesses dos grandes proprietários de terra, que atuaram por meio de suas organizações para barrar as reformas. Em parceria com entidades que representavam os interesses multinacionais como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD) foi dado um golpe preventivo que depôs João Goulart e garantiu o fim da proposta de reforma agrária. Como afirma o historiador Caio Navarro de Toledo (2004), o golpe empresarial-militar de 1964 foi contra “as reformas sociais defendidas por setores progressistas e [...] contra a incipiente democracia política, nascida em 1945” (TOLEDO, 2004, p. 13).

Dentro de um contexto de ditadura diversas lideranças camponesas foram perseguidas, como é o caso do , importante nome em defesa da Reforma Agrária no Maranhão, o presidente da ATAM, Augusto José do Nascimento, que foi preso, torturado, acusado de problemas mentais e internado em um sanatório, local que teria morrido anos depois (para mais informações sobre lideranças perseguidas ver: ).

Para fazer frente às perseguições enfrentadas durante os anos de ditadura, os camponeses buscavam se organizar, tanto de forma clandestina como por meio do apoio da Igreja Católica, que atuava com uma certa liberdade mesmo em um contexto ditatorial, formava lideranças e conseguia agrupar trabalhadores que estavam ligados à extinta ATAM.

Durante as esses grupos organizados de camponeses decidiram apoiar José Sarney, que anos antes havia assinado o documento em defesa da realização da II Conferência Agrária do Maranhão e que prometia a reabertura e autonomia das associações. No entanto, a eleição de Sarney representou, ao contrário do que esperavam os camponeses, o início de uma política de intensificação da expropriação dos trabalhadores de suas terras (ver: ).

Diante do aumento dos casos de violência no campo, foi aprovada a criação da Comissão Pastoral da Terra (CPT) pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em 1975, ela é resultado da forte atuação que a Igreja Católica já exercia no meio rural através das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). No Maranhão o órgão foi criado no 11º encontro Provincial das CEB's em julho de 1976

A CPT do Maranhão passou a ter uma importante atuação no combate as violências no Campo, por meio da documentação dos casos, das denúncias realizadas, da assessoria jurídica e proteção social a famílias e quebradeiras de coco babaçu, além do apoio a organização autônoma das populações do campo.

A partir do é possível ter uma ideia do tamanho da violência cometida contra camponeses no contexto da ditadura empresarial-militar no Maranhão. A maioria dos casos de violência foram realizados por agentes privados, diante da resistência das populações do campo à expansão da agropecuária capitaneada pela prática da diante de um contexto de expansão do modelo econômico dependente e financiado pelo Estado.

Todavia, a falta de responsabilização do Estado nesses casos de violência realizados por grupos privados leva a um apagamento da história desses camponeses enquanto vítimas da ditadura empresarial-militar. Diante disso, é fundamental compreender que a ditadura se inseriu dentro de um projeto modernizante dependente que garantia a manutenção de uma estrutura agrária excludente, aprofundando a expropriação dos camponeses ao mesmo tempo que garantia formas de subjugação da economia nacional ao capital monetário internacional e cada vez mais concentrado.

Referências

  • ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Autonomia e mobilização política dos camponeses no Maranhão. Rio de Janeiro: Casa 8, 2015.
  • COSTA, Wagner Cabral da. O Rosto Rural da Igreja: a atuação da CPT no Maranhão 1976/1981 (Monografia de Conclusão de Curso) Curso de História, Universidade Federal do Maranhão: São Luís, 1994.
  • MEDEIROS, Leonilde Servolo de. Reforma agrária no Brasil: história e atualidade da luta pela terra. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. (Coleção Brasil Urgente)
  • TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, nº 47, p. 13-22, 2004.

Uma "bovinocracia" no Maranhão

O avanço das pastagens, a grilagem de terras e o processo de expropriação dos trabalhadores rurais durante a modernização dependente.

Veja os vídeos a seguir:

Câmera de Cinema

Vídeo 1: Avanço do preço da carne bovina no Maranhão.

Trecho selecionado: 1:29 a 4:43

Vídeo 2: Maranhão se transforma no maior exportador de carne bovina do Nordeste.

Trecho selecionado: 1:46 a 3:07

Provavelmente você já viu alguma reclamação sobre o preço da carne bovina nos açougues. Além de uma importante fonte de proteína, esse produto faz parte da cultura alimentar do brasileiro. Mas tem enfrentado aumentos constantes, o que tem impactado o consumo dele por famílias de menor renda. Qual será a causa dessas elevações? Seria uma redução na oferta do produto? O que explicaria essa redução? Considerando que o Maranhão é o maior exportador de carne do nordeste, o valor desse produto não deveria ser mais barato?

Até a segunda metade do século XX a produção de carne bovina no Maranhão atendia principalmente ao mercado interno e só exportava produtos excedentes. No entanto, o processo de vivenciado no estado a partir dos anos 1970 mudou profundamente a fisionomia desse setor econômico, que foi bastante beneficiado pela concentração de terra identificada naquele contexto.

O economista Alberto Arcangeli destacou o avanço da pecuária de corte no Maranhão, tanto pela prática da , quanto por meio da implantação de projetos de colonização entre 1972 e 1980. A partir de um breve levantamento nos projetos agropecuários implantados e financiados pela no Maranhão até setembro de 1981 (documento na aba fontes), o autor pôde demonstrar a intensa concentração de projetos voltados a essa atividade.

Portanto os favorecimentos à atividade por meio da facilitação no acesso à terra, crédito barato e incentivos fiscais, permitiram uma intensa dinamização da pecuária bovina no Maranhão. A atividade que antes se limitava a áreas de ocupação mais antiga, passou a desempenhar a partir de então um violento papel expropriador da população .

Assim a produção pecuária, que antes era livre, gerou uma intensa corrida pelas terras, aprofundando e consolidando a propriedade privada desse meio de produção. Esse processo marca a entrada definitiva de grandes grupos capitalistas, nacionais e estrangeiros na atividade de criação de gado de corte no interior do Maranhão, uma marca do processo de avanço do capital sobre as diversas atividades humanas, característica marcante do contexto do capital-imperialismo.

O gráfico abaixo dá um indício do crescimento dessa atividade:

Rebanho bovino (1960 - 1985)

Rebanho bovino (1960 - 1985)

O gráfico acima indica o intenso crescimento do rebanho bovino no Maranhão entre 1960 e 1985, com elevação mais acentuada, principalmente, na década de 1970. Esse processo será resultado do crescimento da terra disponibilizada a projetos agropecuários desenvolvidos por instituições públicas em parceria com empresas privadas.

A expansão da pecuária bovina no Maranhão ficará evidente ainda quando estabelecemos uma comparação entre essa atividade, e a produção agrícola, principal atividade até a segunda metade da década de 1975, como indica o gráfico a seguir:

Área total destinada às principais atividades econômicas (em hectares)

Área total destinada às principais atividades econômicas (em hectares)

Logo, embora nos primeiros anos da década de 1970 tenha havido um crescimento das áreas destinadas à agricultura, isso se revertera no quinquênio seguinte, quando há uma extensão significativa das áreas destinadas à pecuária. Esse processo é coincidente com a implementação dos projetos de colonização no estado. Principalmente ao observarmos que esse crescimento dos espaços voltados a pecuária teve como foco principal a pecuária bovina, e principalmente nas áreas com maior extensão de terra. Desse modo, os dados apontam o impacto das políticas de colonização, e principalmente de seu favorecimento à pecuária bovina, pois a redução da área destinada a produção de arroz não se equipara a evolução dos espaços disponibilizados à criação de gado.

Portanto, ao ver alguém reclamar do preço da carne bovina é importante compreender que essa elevação não se trata apenas de uma simples falta de oferta do produto, como em muitos casos querem nos fazer acreditar. Ao contrário disso, ela é resultado de uma intensa transformação vivenciada na estrutura econômica global, em que o alimento deixa de servir a uma necessidade básica e passa a fazer parte de uma dinâmica econômica global desigual, atendendo aos interesses de mercado, principalmente das nações imperialistas.

Por fim, é importante destacar que além do aumento no valor do produto e a expropriação dos camponeses, esses empreendimentos exercem um forte impacto ambiental, tanto na destruição intensa da floresta nativa para a abertura de pastos, quanto pela emissão do gás metano (CH4). Conforme Observatório do Clima do SEEG, em 2024 as emissões do estado do Maranhão totalizaram 129,12 MtCO2e (GWP-AR5). Desse total, 22,80 MtCO2e (17,7%) foram emitidas pelo setor da Agropecuária, 89,50 MtCO2e (69,3%) pelo setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas.

Referências

  • ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de; MOURÃO, Laís. Questões agrárias no Maranhão contemporâneo. Manaus: UEA Edições, 2017.
  • ARCANGELI, A. O mito da terra: uma análise da colonização da Pré-Amazônia maranhense. São Luís: UFMA/PPG/EDUFMA, 1987.
  • CUNHA, R. Ocupação e o desenvolvimento das duas formações socioespaciais do Maranhão. [s.l: s.n.]. Disponível em: https://periodicos.furg.br/cnau/article/download/5525/3432/15636. Acesso em: 13 dez. 2025.
  • SEEG – Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, Observatório do Clima, acessado em 15 dez. 2026.

Cronologia da Modernização Dependente no Maranhão

1964 – 1985: Modernização Dependente e Resistência no Campo Maranhense.

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1964
Soldados tomam o Eixo Monumental em Brasília, 1964

1964: Golpe Empresarial-militar

O golpe foi uma aliança entre diferentes frações de classe no Brasil para, por um lado, conter o avanço das reformas exigidas pelos movimentos sociais, principalmente a Reforma Agrária; e, por outro, aprofundar a influência do capital multinacional no Brasil, fortalecendo a posição de nação dependente no quadro econômico global.

1964
Estatuto da Terra, Lei nº 4.504 de 1964

1964: Estatuto da Terra

O Estatuto da Terra, aprovado logo durante a chegada dos governos militares ao poder – novembro de 1964 – foi um verdadeiro ataque às demandas populares. Embora contemplasse elementos distributivistas, tinha como característica principal a produtividade, expressa na concepção de "empresa rural", o que permitia a manutenção da concentração fundiária.

1964-1965

1964-1965: Regulamentação do Estatuto da Terra

O Decreto nº 55.286/64 desvinculou Reforma Agrária e Política Agrária. O Decreto nº 55.891/65 instituiu sua metodologia, fortaleceu o crédito rural e caracterizou a empresa rural. O Decreto nº 56.798/65 permitiu o financiamento via BNDE.

1965
José Sarney

1965: Eleição de José Sarney no Maranhão

A trajetória eleitoral de Sarney em 1965 estava em sintonia com a propaganda de modernização da ditadura. Propôs discurso contra o e de higienização política, sintetizado na ideia do "Maranhão Novo", posicionando-se como representante da ditadura no estado.

1966

1966: Criação da SUDEMA

A foi criada pela Lei nº 2.669, de 29/07/1966, no primeiro ano do governo Sarney. Visava planejar o "progresso" do Estado, atrair investimentos (principalmente estrangeiros) e implantar programas de assistência técnica.

1966

1966: Eleições para o Legislativo no Maranhão

Com o (1965), os principais grupos políticos do estado migraram para o partido da ditadura, formando bloco que ajudou a implantar a modernização do campo e abrir espaço ao capital internacional. A tornou-se o principal partido no Maranhão.

1966

1966: Lei nº 4.947/66

Estabeleceu as prioridades dos órgãos responsáveis pela Reforma Agrária e permitiu aos estados atuarem com o IBRA na expedição de títulos de terra, abrindo margem legal para dinâmicas estaduais de distribuição fundiária.

1968

1968: I Programa de Governo e Reserva Estadual

O I Programa de Governo previa investimentos em infraestrutura (estradas) e estímulo à produção (assistência, mecanização, crédito). A Lei estadual nº 3.831/1968 criou a Reserva Estadual de Terras e as Delegacias de Terras para "disciplinar a ocupação e titular áreas devolutas".

1969

1969: Decreto-lei nº 494/69

Permitiu a brasileiros e estrangeiros adquirir áreas para projetos industriais e agropecuários de interesse para a economia nacional, alinhados com o projeto de modernização dependente estruturado pelo governo militar.

1969

1969: Lei de Terras Sarney

A Lei nº 2.979 de 17/06/1969 permitiu ao governo vender terras devolutas do Estado sem licitação. Embora estipulasse limite de 3.000 ha, era contornada pela criação de Sociedades Anônimas.

1970
Plano de Integração Nacional (PIN)

1970: Plano de Integração Nacional (PIN)

O Decreto-lei nº 1.106/1970 criou o plano orientador da integração de áreas de interesse social. Ampliou investimentos em infraestrutura no Norte e Nordeste, com destaque para a construção das rodovias Transamazônica e Cuiabá-Santarém.

1970

1970: Criação do DDA no Maranhão

A Lei nº 3.079/70 criou o Departamento de Desenvolvimento Agrário, órgão responsável pela análise dos pedidos de concessão de títulos provisórios e venda de terras pleiteadas por grupos privados.

1971

1971: Criação do Proterra

O Decreto-lei nº 1.179/71 instituiu o Programa de Redistribuição de Terras, voltado ao fomento da agroindústria no Norte e Nordeste, por meio da SUDAM e da SUDENE.

1971

1971: I Plano Nacional de Desenvolvimento

Incorporou o PIN e o Proterra, previu a expansão da malha rodoviária como forma de penetração dos projetos agropecuários e incentivou a modernização do campo e a instalação de empresas de processamento agrícola.

1971

1971: Criação da COMARCO

A Companhia Maranhense de Colonização (Lei nº 3.230/1971) executava projetos de colonização, ordenava ocupações existentes e localizava médios e grandes empreendimentos agropecuários, fomentando, com o DDA, a expansão da fronteira agropecuária no estado.

1972
Manoel da Conceição

1972: Resistência Camponesa e Prisão de Manoel da Conceição

O avanço da grilagem e a expropriação geraram forte resistência camponesa. No Vale do Pindaré, o STR tornou-se polo de contestação sob a liderança de Manoel da Conceição, preso e brutalmente torturado pela ditadura — sua figura converteu-se em símbolo nacional da luta pela terra.

1974

1974: II Plano Nacional de Desenvolvimento

A Lei nº 6.151/1974 destacou a importância do PIN e do PROTERRA, ampliando investimentos em agricultura, pecuária e mineração. Direcionou recursos ao POLAMAZÔNIA e ao POLONORDESTE; o Maranhão, em área de transição, recebia investimentos dos dois programas.

1975
João Palmeiras Sobrinho

1975: Morte de João Palmeiras Sobrinho

Ex-presidente do STR de Imperatriz, foi morto por jagunços em janeiro de 1975. Atacado ao meio-dia em sua roça por doze homens armados, junto a outros companheiros: três trabalhadores rurais foram mortos, sendo João Palmeiras um deles.

1975

1975: Fundação da Comissão Pastoral da Terra

Frente ao aumento da violência no campo, a CNBB fundou a CPT. No Maranhão, exerceu papel central no combate às violências: documentou casos, fez denúncias, ofereceu assessoria jurídica e proteção social a famílias camponesas e quebradeiras de coco babaçu, além de apoiar a organização autônoma dos trabalhadores.

1979

1979: Criação da COTERMA

A Lei nº 4.036/1979 criou a Companhia de Colonização de Terras do Maranhão, que unificou DDA e COMARCO. Permitiu atuação integrada do Estado no avanço da expropriação e no controle das terras pleiteadas por grupos privados.

1979
Firmino Guerreiro

1979: Morte de Firmino Guerreiro

Em agosto de 1979, o grileiro Antônio Abreu assassinou o trabalhador rural Firmino Guerreiro, em Bom Jardim, e feriu outro trabalhador e o presidente do STR. O grileiro cobrava ilegalmente renda dos posseiros na área do Rio Caru; o atentado gerou forte comoção e ato público no STR.

1980

1980: Criação do GETAT

A ditadura instituiu o Grupo Executivo de Terras do Araguaia-Tocantins, subordinado ao Conselho de Segurança Nacional — militarização da administração fundiária na Amazônia Legal (incluindo o oeste maranhense). Acima do INCRA, fazia reforma agrária localizada e autoritária, em favor dos grandes proprietários.

1980
Base de Alcântara

1980: Criação do Centro de Lançamento de Alcântara

O Decreto estadual nº 7.820/1980 declarou de utilidade pública 52.000 ha para a Base de Alcântara; o Decreto Federal nº 92.571/1986 determinou a relocação para módulos de 15 ha. Mais de 2.000 famílias quilombolas, com extrativismo, pesca, caça e cultivo em uso comum, foram impactadas em seu modo de vida tradicional.

1980
Estrada de Ferro Carajás

1980: Projeto Grande Carajás (PGC)

Para viabilizar a exportação de minérios, o PGC impactou o Maranhão com a Estrada de Ferro Carajás, ligando o leste do Pará ao Porto de Itaqui. Reordenou a infraestrutura regional, atraindo empreendimentos que acentuaram a pressão sobre terras camponesas, indígenas e quilombolas ao longo do traçado.

1985

1985: Transição e I Plano Nacional de Reforma Agrária

Na transição para a Nova República, o I PNRA propunha assentamentos em imóveis desapropriáveis e a participação de organizações representativas (Contag). A resistência da UDR e de proprietários desidratou as metas; a relativização da definição de imóveis produtivos manteve, na prática, os impasses da estrutura latifundiária.

O veneno está servido

Uma análise sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde da população, no meio ambiente e a expansão do agronegócio no Maranhão.

Veja o vídeo a seguir:

Câmera de Cinema

Dossiê Abrasco: Um alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde

Agora observe a imagem:

Esquema: Impactos do Uso de Agrotóxicos

Impactos do Uso de Agrotóxicos

FONTE: Rede de Agroecologia do Maranhão (RAMA)

O vídeo e o mapa que você acabou de ver apontam para um problemão enfrentado com cada vez mais frequência pelos camponeses no Maranhão e no Brasil como um todo. Provavelmente você já ouviu falar dos agrotóxicos e que eles causam fortes impactos na saúde humana e no meio ambiente. Mas será porque o seu uso tem se tornado tão comum no Brasil? Qual a relação que existe entre a forma como se produz na sociedade capitalista e o uso desses produtos?

Para responder essas perguntas é necessário refletir sobre a forma como se produz os alimentos dentro da sociedade capitalista, principalmente a partir da década de 1950, momento em que se aprofunda o processo de modernização do campo. Esse processo traz consigo o uso intenso de maquinários, fertilizantes químicos e agrotóxicos, como elementos fundamentais para a produção agrícola.

O processo de modernização dependente, aprofundado durante o contexto da ditadura empresarial-militar, foi marcado pelo incentivo estatal à entrada de empresas multinacionais, principalmente estadunidenses, que produziam e vendiam maquinários, fertilizantes químicos e agrotóxicos. Desse modo, o avanço da modernização da agricultura passava pela criação e aprofundamento da necessidade desses produtos, fazendo avançar o lucro dessas empresas.

Na imagem abaixo é possível perceber os incentivos governamentais dados a esses instrumentos de produção:

Incentivos Governamentais e Modernização

Fonte: O Estado de São Paulo, 22 de agosto de 1971 apud Oliveira 2013, p. 163.

Essa propaganda foi veiculada durante o governo do general-presidente Médici e oferecia aos médios e grandes produtores rurais uma diversidade de instrumentos para que pudesse "alimentar o mundo". Ela estava em sintonia com os objetivos defendidos no I Plano Nacional de Desenvolvimento (IPND), que estabelecia como prioridade o "aumento da exportação de produtos agrícolas não tradicionais".

Portanto, o avanço da fronteira agrícola no Maranhão, principalmente depois da Lei de Terras Sarney, trouxe consigo não apenas a expropriação das terras tradicionalmente ocupadas pelos camponeses, mas um conjunto de outras expropriações, inclusive para aqueles que ainda conseguiram resistir no campo: como a saúde, a água, o alimento e a fonte de renda, diante do uso dos agrotóxicos que causam impactos nas produções dos camponeses, na contaminação das nascentes, rios e lençóis freáticos e na saúde diante do contato direto com essas substâncias químicas.

No censo agropecuário de 1970, 1.510 informantes declararam ter usado algum tido de fertilizante (químicos ou naturais) no estado do Maranhão, sendo que o uso de fertilizantes químicos foi declarado em apenas 369 estabelecimentos. Já em 1985, 5.103 indicaram o uso de fertilizantes, com 2.696 apontando o uso de fertilizantes químicos, mais interessante ainda é a utilização de "defensivos" que não aparece no ano de 1970, porém em 1985, 94.027 informaram a sua utilização.

Esses dados ajudam a entender a relação direta entre os incentivos oferecidos pelo governo e o avanço no uso desses produtos. Além disso, permitem a compreender o espaço legado ao Brasil na dinâmica capitalista internacional, de consumidor de produtos industrializados e tendo como principal pauta de exportações os produtos agrícolas.

O impacto do uso de agrotóxicos é ampliando pela implantação de outras tecnologias no campo, como é o caso dos drones, que já correspondem por 94% das contaminações por esses produtos. Portanto, a demanda constante por novas tecnologias na agricultura, ampliam ainda mais o lucro de empresas multinacionais, como é o caso das produtoras de semicondutores para os drones, o que ajuda a fortalecer as assimetrias entre países imperialistas e dependentes.

Desse modo, os dilemas enfrentados pelos camponeses, com a destruição de sua produção pelo uso de agrotóxicos, é parte de um problema muito maior e que impacta a toda a sociedade: que é a qualidade do que chega a nossa mesa. Vale a pena colocar a saúde em risco para manter o lucro das empresas? E será que é possível alimentar o mundo sem os agrotóxicos?

O combate a fome sempre foi o principal argumento para utilização de uma agricultura industrial e baseada nos agrotóxicos e fertilizantes químicos, mas na verdade esse é um mito que só serve para servir de justificativa para o aprofundamento do modelo capitalista de produção agrícola. O fato é que 70% da humanidade continua sendo alimentada pela rede camponesa (camponeses, pescadores artesanais e agricultores urbanos). E mesmo com a implementação de uma produção industrial no campo ainda convivemos com o paradoxo de mais de 1 bilhão de habitantes passarem fome.

Portanto está mais do que claro que o caminho não é o aprofundamento do uso dos agrotóxicos, como tem sido observado, mas a adoção de práticas agrícolas que possam estar conectadas com a ressignificação de técnicas tradicionais, como é o caso da agroecologia.

Referências

  • DIAS, Alexandre Pessoa et al. (Org.). Dicionário de agroecologia e educação. 1. ed. São Paulo: Expressão Popular; Rio de Janeiro: Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio, 2021.
  • OLIVEIRA, Pedro Cassiano Farias de. Extensão rural e interesses patronais no Brasil: uma análise da Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural - ABCAR (1948-1974). 2013. Dissertação (Mestrado em História) – Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2013.
  • REDE DE AGROECOLOGIA DO MARANHÃO (RAMA). Atualização do mapa do veneno no Maranhão: Janeiro - Julho 2024. Disponível em: https://www.rederama.org/post/atualiza%C3%A7%C3%A3o-do-mapa-do-veneno-no-maranh%C3%A3o-janeiro-julho-2024. Acesso em: 28 jun. 2026.
  • REPÓRTER BRASIL. Drones e contaminações por agrotóxicos no Maranhão. 2025. Disponível em: https://reporterbrasil.org.br/2025/01/drones-contaminacoes-agrotoxicos-maranhao/. Acesso em: 28 jun. 2026.

O caso da fazenda Maguary

Posse da terra e política no Maranhão

Veja a matéria jornalística a seguir:

Jornal

Matéria jornalística: Investigação de Poder e Infraestrutura

Reportagem

A relação entre poder político, infraestrutura e interesses privados é um elemento central para compreender os conflitos agrários no Maranhão.

Ler reportagem completa

As relações entre a posse da terra e a política no Maranhão podem ser evidenciadas em diversas situações, como a apontada na reportagem acima. Não é incomum políticos em nível estadual e municipal serem proprietários de grandes extensões de terras no estado e usarem a estrutura estatal para benefício próprio. Mas como essas relações se estabelecem? Como esse patrimônio é construído?

Como a situação acima, o caso vivenciado por mais de 100 famílias no município de Santa Luzia em 1977 ajuda a ilustrar essas relações entre poder político e elite agrária. A Fazenda Maguary foi comprada por José Sarney de um grileiro chamado José Salomão. O caso veio à tona devido a uma disputa política entre aquele e o então governador do Maranhão, Nunes Freire.

José Salomão havia aforado junto à Prefeitura de Santa Luzia, município onde se localizavam as terras, 300 hectares; no entanto, buscou se apossar, por meio da desapropriação de pequenos posseiros da região, de 5.700 hectares. Ele teria tentado comprar essas terras inicialmente do Departamento de Desenvolvimento Agrário (DDA) e da Companhia Maranhense de Colonização (COLONE), mesmo não tendo sucesso e sem a propriedade legal da terra, ele vendeu a José Sarney as poucas benfeitorias e a suposta posse da terra.

Diante das disputas travadas no interior da Aliança Renovadora Nacional (ARENA) pelo controle político no Maranhão, Nunes Freire, que era aliado político de Vitorino Freire, teria denunciado José Sarney na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) de Terras pelo envolvimento em conflitos de terras na região de Santa Luzia.

A situação se tornou mais dramática diante da derrubada, pela segunda vez, das cercas da fazenda por posseiros da região que há anos, pelo menos desde 1961, vinham sendo expulsos da terra e tendo suas roças destruídas pela liberação de gado pela fazenda. Na ocasião, a polícia militar agiu com extrema violência contra os posseiros, realizando, inclusive, prisões sem ordem judicial, e, portanto, ilegais. Os interrogatórios foram dirigidos com extrema violência pelo sargento Francisco Santos, que era delegado de Santa Luzia. Além disso, ele permitiu a presença de Expedito Leite, que era gerente da Fazenda Maguary, no momento dos interrogatórios.

José Sarney, em resposta às acusações, afirmou que o que ele fez:

“Foi comprar uma propriedade de José Salomão. Eu posso comprar e ele pode vender. A fazenda existe há mais de 20 anos; o projeto que apresentei ao Banco do Brasil foi realizado por uma empresa do Estado do Maranhão, a EMATER” (O jornal apud Amaral Neto, 2024, p. 217).

O então senador alegava que os escândalos envolvendo seu nome e a grilagem de terras no município de Santa Luzia eram apenas uma disputa política local, uma ação do então governador do estado (Nunes Freire), considerado seu inimigo político, para tentar manchar sua reputação. Walter Rodrigues afirmou, em reportagem vinculada em 19 de dezembro de 1977 no Jornal Folha de São Luís:

[...] Que os objetivos da denúncia de Nunes Freire na CPI foram políticos, não há a menor dúvida. Afinal, quando o governador assumiu já encontrou o problema entre os posseiros e Maguary, e até então silenciara sobre ele. Sarney afirma também que o objetivo de Nunes Freire era simplesmente abafar o ruído das denúncias feitas pelo próprio senador e pelo MDB contra o governador e alguns de seus principais auxiliares. Seja como for, era e continua sendo inegável que em Santa Luzia há um conflito social e legal, antes de haver um confronto político (Rodrigues, 1977, p. 3).

No ano seguinte (1978), inclusive, um posseiro foi assassinado naquelas terras (ver no mapa: Hermínio Alves da Luz), diante de uma nova tentativa de grilagem: um grileiro conhecido como Cearense Carlos começou a cercar todos os povoados e intimidou Hermínio da Luz e sua família a venderem as terras em que viviam. Diante da recusa, o cearense contratou um pistoleiro para matar Hermínio e em seguida desapareceu.

Depois disso, a terra foi transferida para a Agropecuária Guaraciaba Comércio e Agricultura LTDA, de propriedade de Moacir Ximenes. E a partir de 1980, a Secretaria do Interior do governo do estado, em ação conjunta com a Companhia de Terras do Maranhão e a Comissão Estadual de Terras, “arrancou dos posseiros da área um acordo pelo qual apenas dois mil hectares ficaram para cerca de 500 famílias da região” (Asselin, 1982, p. 156).

Esse caso é um exemplo das relações entre poder político e elite agrária no estado do Maranhão. É uma característica fundante do processo de modernização dependente vivenciado a partir da segunda metade do século XX no Brasil a aliança entre diferentes frações de classe, entre elas a financeira, a industrial e a latifundiária. Essa aliança permitiu a manutenção, e até mesmo a ampliação, da concentração de terras, com forte avanço da fronteira agropecuária em diversas regiões do Maranhão.

O caso de José Sarney não era uma exceção, ao contrário, ele ajuda a compreender um conjunto de práticas que marcaram o processo de expropriação dos camponeses no Maranhão. De acordo com o parecer do relator da CPI da Terra, havia problemas crônicos que alimentavam a grilagem, como:

[...] 1 – compra, pelo grileiro, do direito de posse de pequenas áreas com benfeitorias, sem confrontações ou limites. Em seguida é requerido o usucapião da área, embora, muitas vezes, não exista registro algum de propriedade particular. Mas, com a sentença, não cumpridas as exigências legais, acompanhada de um mapa abrangendo milhares de hectares, é conseguido o registro de propriedade do imóvel em livro próprio; 2 – registro de títulos de ocupação da posse no livro de Registro de Imóveis; 3 – falsificação de títulos e seus registros posteriores no Registro de Imóveis, sem observância, nestes casos, do exigido por lei; 4 – registro de simples escritura de compra e venda, sem existir a linhagem das transmissões ou cadeia dominial, conforme exigências da Lei de Registro Público em vigor [...] (Diário do Congresso Nacional, 1979 apud Amaral Neto, 2024, p. 222).

Esse processo de apropriação de terras por grilagem no Maranhão, em muitos casos, envolvia de forma direta, ou por conivência, políticos locais, como é o caso de diversos prefeitos, ou como o assassinato de Raimundo Alves da Silva, a perseguição a mais de 100 famílias em Vitorino Freire, a tentativa de homicídio de “Sitonho” em Godofredo Viana, a perseguição política contra padres e camponeses em Riachão (entre outros). A presença desses políticos era produto, por um lado, do controle histórico que detinham da terra, mas também do desejo de ampliação de suas posses e de pessoas ligadas a eles.

Essas relações entre poder político e elites rurais se perpetuam no tempo; isso pode ser percebido pela forte atuação dos parlamentares em pautas que favorecem ruralistas. Em levantamento realizado por um órgão de representantes do setor agropecuário, Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), 14 dos 21 parlamentares maranhenses tiveram um alinhamento de 40% a 80% com as pautas do agronegócio entre 2024 e 2025. Além disso, 8 parlamentares se declaram membros da Frente Parlamentar da Agropecuária; e 9 dos 43 deputados estaduais do Maranhão declararam algum patrimônio relacionado com atividades agropecuárias.

Referências

AMARAL NETO, Roberval. Conflitos fundiários no Maranhão: Lei Sarney de Terras, resistência camponesa e a luta de Manoel da Conceição nos anos 1960 e 1970. 2024. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Belém, 2024.

ASSELIN, Victor. Grilagem: corrupção e violência em terras do Maranhão. Petrópolis: Vozes, 1982.

CONFEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO BRASIL (CNA); SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM RURAL (SENAR-MA). CNA divulga ranking parlamentar agro e revela quem mais defende o agronegócio no Maranhão. [S. l.], [2024?]. Disponível em: https://senar-ma.org.br/cna-divulga-ranking-parlamentar-agro-e-revela-quem-mais-defende-o-agronegocio-no-maranhao/. Acesso em: 02 jul. 2026.

O ESTADO DE S. PAULO. Estrada que beneficia governador do MA tem desvio que atende empreiteiro e o irmão. Política, 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/politica/estrada-que-beneficia-governador-do-ma-tem-desvio-que-atende-empreiteiro-e-o-irmao/. Acesso em: 02 jul. 2026.

RODRIGUES, Walter. Verdades sobre o caso da Maguary. Folha de São Luís, São Luís, p. 3, 19 dez. 1977.

TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (TSE). Divulgação de Candidaturas e Contas Eleitorais: Eleições Gerais 2022 - Maranhão. Brasília, 2022. Disponível em: https://divulgacandcontas.tse.jus.br/divulga/#/candidato/NORDESTE/MA/2040602022. Acesso em: 02 jul. 2026.

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Lideranças Camponesas sob ameaça

A trajetória de Manoel da Conceição

Veja o vídeo a seguir:

O vídeo que você acabou de assistir aponta um pouco da situação vivenciada por lideranças camponesas no Maranhão. Essas pessoas que decidem se por a frente de uma luta, são constantemente ameaçadas e mortas por aqueles que não suportam a possibilidade de serem questionados, que buscam constantemente ampliar o seu controle sobre a terra e a vida dos camponeses.

Algumas trajetórias de lideranças, que lutaram contra o avanço da modernização dependente no Maranhão são um exemplo de resistência. Como é o caso de João Palmeiras Sobrinho de Imperatriz e Firmino Guerreiro de Bom Jardim (você pode ver a trajetória desses líderes na aba mapa da violência). Outro exemplo marcante da luta camponesa no Maranhão é Manoel da Conceição, cuja trajetória iremos nos dedicar nessa página.

nasceu em 1935, na cidade de Pedra Grande no Maranhão. Dedicava-se ao trabalho na terra, lavoura. Ainda jovem vive com sua família a expulsão de sua terra, devido sua comunidade ter concordado com um mandão local que este passasse as terras para seu nome em troca de proteção. Tendo este falecido, sua viúva, no entanto, expulsou os camponeses da terra. Como narra Manoel da Conceição:

O que aconteceu? Meu pai era um bom freguês. Todos os anos pagava direitinho pra poder fazer novas compras. Vendia a produção pra esse Luís Soares. Então ele disse: "Olha, Antônio, agora chegou o negócio de pagar o imposto territorial, mas não precisa você pagar. Eu faço o usucapião – meto as tuas terras dentro das minhas, legalizo tudo. Tu não vai pagar nada, mas as terras continuam lá sendo tuas. É apenas uma questão de formalidade." Papai ficou achando Luís Soares melhor ainda: "Que ótimo, que bom. Se ele não faz isso, o estado mete a mão nas terras." Em 1952, 1953, esse cara morre. Daí em diante, a viúva ficou com tudo e começou a cobrar o aluguel das terras, dessas terras que eram de herança, de que a gente era dono. Os caras que tinham feito verbalmente compromisso com Luís Soares começaram a reagir: "A gente não paga. Essa terra é nossa, pra que é que vai pagar aluguel? Que tomar terra nossa coisa nenhuma!" Meu pai foi um dos que resistiram e, por fim, em 1955, a viúva invadiu essa propriedade e nos expulsou das terras. Invadiu com jagunços municipais (SANTOS, 2010, p.87).

Em 1955, Manoel da Conceição muda-se para a região do Mearim (próximo ao munícipio de Bacabal). E retorna para Pirapemas, onde irá organizar a Associação de Lavradores junto com outros camponeses e camponesas. Ainda na cidade de Pirapemas, Conceição se envolve em um conflito com fazendeiros em 1957, na ocasião latifundiários e a polícia local realizam uma chacina, massacrando dezenas de . Com isso Conceição decide ir em direção ao Vale do Pindaré, como ele mesmo descreve:

Com essas mortes que houve em Pirapemas, nós não tínhamos mais nenhuma alternativa de conquistar nosso pedacinho de terra. Saímos de novo pra terras devolutas, procuramos o Vale do Pindaré-Mirim. A família então se dividiu. Dois irmãos ficaram em Pirapemas com os tios e os avós. Fui eu, meu pai, minha mãe, uma irmã e dois irmãos mais velhos. (SANTOS, 2014 apud Sulidade, 2018, p. 68)

A região do Pindaré (ver página sobre o grilo Pindaré), local em que Manoel da Conceição se fixa em 1963, era considerada uma região de "terras livres", "disponíveis, o que atraia diversos camponeses do Maranhão, e do Nordeste como um todo, pessoas que se deslocavam de áreas com ocupação mais antiga.

Em Pindaré Mirim, Conceição inicia sua formação sindical por meio do Movimento de Educação de Base (MEB). Sempre teve vínculo com a Igreja, em primeiro momento protestante, posteriormente, aproximou-se mais do catolicismo. Logo após, ele cria, em parceria a outros camponeses 28 escolas de alfabetização, as quais voltavam-se não somente para a apreensão dos códigos, mas também para o letramento sindical e político crítico. Fundaram ainda o primeiro Sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré-Mirim, presidido por Manoel logo de início, o qual no período em que se instaura o golpe militar já continha quatro mil camponeses.

Os camponeses liderados por Manoel da Conceição travavam uma luta contra os fazendeiros, pois tinham suas roças constantemente invadidas pelo gado criado solto. Essa luta era dificultada pelo poder exercido por esses fazendeiros em diferentes áreas, pois eram os comerciantes da região, o que permitia o controle sobre a economia e a política municipal. Portanto a criação do sindicato de Trabalhadores Rurais de Pindaré-Mirim, era a organização dos camponeses contra as arbitrariedades cometidas por esses fazendeiros, e pela conivência do Estado. Como observou Manoel da Conceição:

[...] Antes mesmo do João Goulart, tinha uma oligarquia – – que vinha ao longo da história. Ele lá é quem tinha o monopólio de tudo, então os trabalhadores rurais não sabiam nem que eram a autoridade, Ministério do Trabalho, coisa nenhuma. Ouvia só falar. Mas não sabia nem quem é. Não tinha nenhuma visita. E o sindicato quando foi fundado, para o Ministério do Trabalho lá no Maranhão, o que nós ficamos sabendo depois é que foi visto como uma ameaça à paz na região. Está entendendo? Não foi visto como uma coisa progressista, de ser acatada, foi visto como uma ameaça, de luta pela terra. Porque a palavra de ordem que foi aprovada no dia da fundação, que todo mundo queria, qual foi? Havia já uma prática dos fazendeiro criar o gado dele na roça dos agricultores. Eles não faziam o pasto. No verão, que tinha pasto na beira dos lagos, o gado ia para lá se alimentar; mas no inverno, esses lago enchia d'água, e aí esse gado subia para os altos, e os altos estava na roça dos agricultores, e eles comiam. E o maior desejo que tinham os agricultores dali era ver esse gado preso, para não roer o arroz dele, a produção dele. Então, qual foi a palavra de ordem? É que todo fazendeiro prendessem seus gados, para não dar prejuízo na roça do agricultor. Aí todo mundo bateu palma, alegre, satisfeito. [...] Esse foi o combinado. Só que nós lutamos contra o gado na roça até o dia do [...] (Santos, 2006 apud Amaral Neto, 2024, p. 285).

Manuel da Conceição e Antônio Pereira no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tufilândia

Manuel da Conceição e Antônio Pereira no Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tufilândia

Fonte: Santos, 2010, p. 200.

A primeira forma de resistência dos lavradores contra os desmandos dos fazendeiros em Pindaré-mirim foi o abate do gado que invadia as roças para que a carne pudesse ser vendida e cobrisse os prejuízos causados.

Com o avanço das reivindicações pela Reforma Agrária durante o governo João Goulart, Pindaré-mirim, que era o município com maiores índices de conflitos agrários, recebeu a visita da Superintendência da Política Agrária (SUPRA), órgão criado no governo Goulart para planejar e executar a reforma agrária no pais. Sobre essa visita, Conceição afirma que:

Quando nós vimos que o negócio estava feio mesmo, resolvemos manter a resistência lá e divulgar o máximo possível na imprensa em São Luís. A gente conhecia uns caras que eram jornalistas e estavam de acordo em divulgar os problemas do interior. Ao mesmo tempo, a gente pressionava através de telegrama, carta, abaixo-assinado, o diabo. Mas nada de vir nenhuma resposta lá do presidente da República. Naquele tempo era o João Goulart o homem que ia fazer a Reforma Agrária. Na nossa cabeça, a longo prazo, o governo ia resolver o problema a nosso favor. As ordens ainda não tinham chegado: por isso é que a gente mandava carta e abaixo-assinado. Quando foi antes do fim de março, chegou o pessoal da Supra (Superintendência de Reforma Agrária). Chegaram lá por tanto burburinho que tinha na região. Fizeram uma sindicância. Esse Zé Bezerra, precisava ver o relatório dele! O homem se cagou todo. Ficou mais humilde que santo. Falou com tanta gentileza que os trabalhadores tinham razão, que ele tinha cometido alguns erros e que as leis eram mesmo restritivas! Agora, o major Vinhas respondeu agressivamente. Acusou nós de bandidos, assassinos, tudo que não prestava. Que invadíamos as cidades de faca, cacete e o que tinha de arma. Que tinha prendido o Zé Vicente porque ele era um comunista, era o mesmo Antônio Vicente lá do caso de Pirapemas, que apenas tinha mudado o nome de Antônio, mas que não tinha nada que ver uma coisa com a outra, de jeito nenhum (Santos, 2010, p.160).

O golpe empresarial-militar de 1964, no entanto, abreviou qualquer possibilidade de conquista dos camponeses, iniciando um período mais duro de atuação do Estado contra os movimentos de luta campesina. Esse momento marca também o início de forte campanha de perseguição do estado contra Manoel da Conceição, que buscou se afastar para regiões com maior dificuldade de acesso, na cabeceira do Rio Caru, interior do Município de Pindaré-mirim. Ali ele planejava estabelecer um polo de resistência, juntamente com outros camponeses da região construíram uma grande roça coletiva para arrecadar dinheiro e comprar armas como forma de fazer frente ao poder do Estado, mas foi dissuadido por membros da Igreja.

No contexto das eleições de 1965, José Sarney, aproveitando-se do cenário maranhense da época manifestava intenso apoio aos direitos camponeses e se comprometera atuar nesse sentido. Se elegeu, portanto, com apoio da classe camponesa, que tinha também forte interesse em retirar o grupo vitorinista do poder. Como relembra Manoel da Conceição:

No final de 65. Aí José Sarney, por onde ele passava era jurando a Deus e ao povo, dizendo o seguinte: 'Meus irmãos que foram preso, que apanharam, que perderam terra, vou meter esses bandido tudo na cadeia, se eu for eleito a governador desse estado. E mais. O Tide Santos (que era um cara que tinha lá, o prefeito) e o Cerêncio (Carlos), (que era outro) esses homens, vou mandar pegar, vivinho, tirar o couro e mandar os lavradores tirar talo de coco e babaçu e espichar no sol quente, para todo mundo ver o couro deles lá, secando, para fazer calçado'. E o povo [...] acreditou (Santos, 2006 apud Amaral Neto, 2024, p. 294).

Uma das primeiras iniciativas do novo governo no meio rural maranhense, no entanto, foi fechar o sindicato, que se manteve na clandestinidade, pressionado por intimidações e violência física.

O sindicato atuava em diversos setores, sendo um deles a saúde pública das comunidades pouco alcançadas ou não alcançadas pelo estado nesse quesito, levava médicos para realizar atendimentos locais. Em um desses atendimentos ocorreu o incidente que lhe custaria a perna. Após chegada violenta da política, Manoel entrou em briga corporal no intuito de contê-los. A polícia revidou com tiros, atingindo seus pés. Preso e sem atendimento médico adequado, viu seu membro ficar cada vez mais debilitado. Diante disso, da situação foi transferido para São Luís. Não havendo mais possibilidade de recuperação, sua perna foi amputada próximo ao joelho, passando a utilizar uma perna mecânica. Ainda em São Luís Manoel recebeu a visita de três representantes de uma secretaria do governo de José Sarney. De acordo com acontecimentos narrados por ele:

'Achamos que devemos dar uma assistência melhor possível a sua mulher. Vamos buscar ela em Teresina, onde ela está com os meninos. Trazer pra cá, arranjar uma casa ou um hotel'. 'Não é preciso, eu tenho um irmão aqui. Ela fica na casa dele'. Ela veio pra São Luís, pagaram as despesas e propuseram também o seguinte: 'Você perdeu essa perna, mas isso não é problema. A gente vai pagar o teu tratamento. Vamos mandar botar uma perna mecânica. Você não volta mais pro interior do Maranhão, vai ficar aqui em São Luís. A gente vai procurar um apartamento pra vocês, um emprego onde você possa trabalhar sem fazer muito esforço [...]'. Aquilo me deu uma raiva danada. Eu sabendo que a manobra era deles, tudo aquilo eram eles que tinham feito! [...]'. Daí foi que se viu aquela palavra de ordem: 'Minha perna é minha classe', dessa recusa que eu fiz ao governo. A minha primeira perna mecânica foi paga exclusivamente com arrecadação financeira de massa [...] (Santos, 2010, p. 212-213, grifo nosso).

Após estes eventos, Manoel seguiu sua militância, utilizando a frase "Minha classe é minha perna" como lema. Esta frase tornou-se conhecida internacionalmente. Ele passou então por um período de formação, promovido por organizações de esquerda, viajando pela Europa, Oriente Médio e China, sendo nesta última recebido por Mao Tsé-Tung, líder da Revolução de 1949. Esta visita foi vista com preocupação pelo governo militar, que passou a desenvolver forte campanha destinada a difamar Manoel e outras lideranças camponesas. Em 1972, ele foi novamente preso, sendo libertado em 1965 com condenação de 3 anos e direitos políticos cassados por dez. Após recurso, foi inocentado. Mudou-se para São Paulo, vivendo em residência eclesial ligada à Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Mais tarde, esta casa seria invadida e Manoel novamente preso por 45 dias. Após liberto, exilou-se na Suíça, onde também atuou em lutas sociais. Ao logo desse período, com apoio da Anistia Internacional realizou palestras pela Europa, debatendo política e direitos humanos.

Trabalhadores recepcionam Manoel da Conceição no seu retorno do exílio, em 1979

Trabalhadores recepcionam Manoel da Conceição no seu retorno do exílio, em 1979

Fonte: Brasil de Fato

De volta ao Brasil em 1979, voltou a engajar-se nas lutas sociais no país. Participou da formação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), foi um dos fundadores do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (CENTRU) em Pernambuco, entidade voltada à garantia da qualidade de vida à classe camponesa e promoção da auto-organização. Posteriormente, a entidade seria criada também no Maranhão, possibilitando, entre outras beneficies a construção da escola sindical Padre Josimo, um centro de capacitação em cooperativa e implantação de culturas permanentes no Maranhão. Mais tarde, Manoel foi contribuiu também na criação do Centro Nacional de Apoio às Populações Tradicionais – CNPT (atualmente, Instituto Chico Mendes). No ano seguinte, atuou na construção do Partido dos Trabalhadores (PT), sendo seu terceiro filiado, motivado pela perspectiva de inserção da classe trabalhadora na política partidária para a garantia dos seus direitos. Trabalhou na estruturação do PT no Nordeste. Pelo partido, candidatou-se várias vezes: ao governo de Pernambuco e ao senado maranhense, em 1994, sem êxito em ambos os pleitos.

Manoel da conceição morreu em 2021, aos 81 anos na cidade de Imperatriz, onde residia desde 1986.

Referências

  • AMARAL NETO, Roberval. Conflitos fundiários no Maranhão: Lei Sarney de Terras, resistência camponesa e a luta de Manoel da Conceição nos anos 1960 e 1970. 2024. Tese (Doutorado) - Universidade Federal do Pará, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Belém, 2024.
  • SANTOS, Manoel da Conceição. Chão de minha utopia. In: SOARES, Paula Elise Ferreira; ANTUNES, Wilkie Buzatti (org.). Chão de minha utopia. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010. p. 276.
  • SANTOS, Raimundo Lima dos. Manoel Conceição Santos: de camponês a líder político. Revista História em Reflexão, Dourados, v. 4, n. 7, jan./jun. 2010.
  • SULIDADE, Mariana da. A luta pela terra em sala de aula: Ensino de História no Maranhão Contemporâneo e a Produção do Paradidático "Terra Livre". 2018. 129 f. Dissertação (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em História, Ensino e Narrativas, Universidade Estadual do Maranhão, São Luís, 2018.

A modernização dependente no contexto da Ditadura Empresarial-militar no Maranhão

Capa - Modernização Dependente

O conceito de Modernização Dependente é a chave para entender por que o avanço tecnológico na agropecuária do Maranhão não eliminou a miséria no campo, mas a aprofundou. Durante a Ditadura Empresarial-Militar, o Estado financiou grandes infraestruturas que serviram ao capital transnacional, caracterizando o que chamamos de capital-imperialismo. Assim, modernização dependente integra o 'atraso' (latifúndio, violência) à dinâmica mais avançada do capital internacional, transformando o camponês em um excluído da sua própria terra.

A conciliação de classes em torno de um projeto modernizante tem sido bastante operacional na compreensão das dinâmicas que passam a tomar corpo na estrutura social e política interna a partir da anos 1960, já que de fato há uma reestruturação no bloco de poder naquele contexto, pois a classe proprietária, historicamente dominante e dirigente, passa a concorrer com novos interesses de caráter multinacional.

Rui Mauro Marini, buscando se distanciar das formulações marxistas que caracterizavam certas peculiaridades latino-americanas como “pré-capitalismo”, parte da ideia marxista de que há desigualdade no processo de desenvolvimento dessas regiões, para afirmar que essa realidade é assim pois está subsumida à uma estrutura global com um funcionamento desigual (Marini, 2000, p.106). Logo, na perspectiva de Marini a dependência pode ser:

entendida como uma relação de subordinação entre as nações formalmente independentes em cujo âmbito as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar a reprodução ampliada da dependência (Marini, 2000, p. 109).

Podemos afirmar que o conjunto dessas reflexões sobre a dependência se relaciona diretamente à concepção de imperialismo na tradição marxista. Nesse ponto, é importante observar o que destacou Theotônio dos Santos (2011) sobre a relação conceitual entre imperialismo e dependência. Para o autor é necessário compreender a dependência como parte do processo de desenvolvimento: o que implica dizer que se trata de um fenômeno histórico que se relaciona com a própria “formação, expansão e consolidação do sistema capitalista”, ou seja, é a identificação de que a evolução do capitalismo nos países desenvolvidos gera impactos nos países por eles afetados. “Não se trata de tomar esses resultados como simples ‘efeitos’ do desenvolvimento capitalista, mas como sua parte integrante e determinante”. (Dos Santos, 2011, p.356).

Nesse sentido, a concepção de modernização dependente se relaciona diretamente com a de capital-imperialismo, pois, na perspectiva elaborada por Virginia Fontes (2010), a partir no contexto pós-Segunda Guerra Mundial representou um importante momento de inflexão na política econômica mundial, com consequências diretas na estrutura agrária dos países dependentes. Para a historiadora:

Falar [...] de capital-imperialismo, é falar da expansão de uma forma de capitalismo, já impregnada de imperialismo, mas nascida sob o fantasma atômico e a Guerra Fria. Ela exacerbou a concentração concorrente de capitais, mas tendencialmente consorciando-os. Derivada do imperialismo, no capital-imperialismo a dominação interna do capital necessita e se complementa por sua expansão externa, não apenas de forma mercantil, ou através de exportações de bens ou de capitais, mas também impulsionando expropriações de populações inteiras das suas condições de produção (terra), de direitos e de suas próprias condições de existência ambiental e biológica. Por impor aceleradamente relações sociais fundamentais para a expansão do capital, favorece contraditoriamente o surgimento de burguesias e de novos Estados, ao mesmo tempo que reduz a diversidade de sua organização interna e os enclausura em múltiplas teias hierárquicas e desiguais (Fontes, 2010, p. 140).

Os processos de expropriações se iniciam pela expropriação da terra, o que Virginia Fontes chama de expropriações primárias. Ela destaca que esse processo de separação do homem de seu recurso social de produção não se restringe ao que a economia clássica chamou de “acumulação primitiva”, mas que este constitui “um processo permanente, condição da constituição e expansão da base social capitalista e que, longe de se estabilizar, aprofunda-se e generaliza-se com a expansão capitalista” (Fontes, 2010, p. 45). Essa leitura é fundamental para a compreensão da violência decorrente das expropriações rurais, não só nos processos de modernização capitalista originais nos países imperialista, como sua expansão para as diferentes regiões do globo.

As expropriações primárias são, portanto, o ponto de partida fundamental para subordinação da vida social, pois é esse processo que libera os trabalhadores ao mercado. “Essa liberdade é real, pois os seres sociais estão defrontados de maneira direta à sua própria necessidade, e ilusória, pois vela as condições determinadas que subordinam os seres sociais e, portanto, as condições sob as quais o trabalho precisa se exercer” (Fontes, 2010, p. 43).

Portanto, compreende-se, com Florestan Fernandes, que a relação entre as transformações decorrentes do contexto específico do capital-imperialismo e sua inserção em uma lógica mais perene na realidade latino-americana, a da modernização dependente, permite uma compreensão mais global das dinâmicas estabelecidas durante a ditadura empresarial-militar no Brasil. Ou seja, ao mesmo tempo em que o país se “moderniza” com a introdução de aspectos que buscam inseri-lo na estrutura do capitalismo global, também mantem um arranjo que permite um tipo especifico e mais acentuado de exploração. Como explica o próprio Florestan Fernandes:

Os mesmos efeitos dinâmicos do padrão dependente de modernização acarretam a necessidade da persistência e da revitalização de dinamismos que não são especificamente "modernos", embora sejam essenciais, em graus variáveis, à eficácia dos fins visados através da modernização dependente. Isso quer dizer que a modernização processa-se de forma segmentada e segundo ritmos que requerem a fusão do "moderno" com o "antigo" ou, então, do "moderno" com o "arcaico", operando-se o que se poderia descrever como a "modernização do arcaico" e a simultânea "arcaização do moderno". A ordem social competitiva, nas condições de existência da sociedade de classes dependente e subdesenvolvida, não pode regular o fluxo da modernização (quanto à sua intensidade e homogeneidade ou quanto aos limites societários da propagação universal de seus efeitos sociais construtivos). De outro lado, em termos positivos, o que os dinamismos em questão "podem realizar": eles dão o máximo de eficácia ao padrão dependente de modernização. Fazem, pois, com que a aceleração do crescimento e do desenvolvimento fatalmente intensifique: a associação dependente; a concentração da renda, do prestígio social e do poder no tope; a apropriação repartida do excedente econômico o nacional, com a drenagem sistemática de riquezas para fora e a destruição sibarítica de riquezas internamente; o agravamento das desigualdades econômicas, sociais e culturais, paralelamente à instauração de processos pluralistas de estratificação societária (Fernandes, 1975, p. 80).

Portanto, os padrões específicos da modernização do capitalismo no contexto latino-americano se apropriam de antigas estruturas para ampliar de forma significativa os processos de apropriação e expropriação da vida social, tanto para permitir uma maior vazão do capital em sentido externo, quanto para sustentar a arcabouço socioeconômico nacional. Desse modo o processo de redefinição social e política que compõe o projeto modernizador durante a ditadura empresarial-militar não se caracteriza apenas por um aspecto conservador, relacionado à manutenção de determinadas estruturas socioeconômicas, mas também por um caráter dependente, conectado à ascensão de uma nova configuração do capitalismo mundial.

O capital monopolista, no contexto do capital-imperialismo vivenciado a partir da Segunda Guerra Mundial, criou novas formas de expropriação de amplas camadas de trabalhadores, tanto por meio da “superexploração do trabalho” nos países dependentes, como pela manutenção de formas tradicionais de expropriação, como a expropriação da terra.

No Brasil, o crescimento da ingerência do capital multinacional se combinou com os interesses de uma elite agrária que desejava manter o controle sobre a estrutura fundiária, o qual vinha sendo questionado pela ampliação dos movimentos em defesa da reforma agrária. É nesse contexto que ocorre o golpe empresarial-militar de 1964, que depõe João Goulart. Por um lado, a tomada do poder garantia o controle dos movimentos contestatórios; por outro, assegurava a penetração do capital multinacional em amplos setores da economia.

Portanto, na conjuntura pós-Segunda Guerra o capital-imperialismo assume o formato fundamental do capitalismo mundial, sendo obrigatório, inclusive, para os países “retardatários”, que por três razões, de acordo com Fontes, jamais conseguiram repetir as “produções sociais” do capitalismo nos países pioneiros: primeiro porque esse processo de penetração do capitalismo sempre exige uma relação dicotômica entre formas tradicionais e a imposição de novas formas de sociabilidade que resultam em uma colocação desigual no plano internacional (Fontes, 2010, p. 151). Em segundo lugar, os países que primeiro experimentam essa passagem estabeleceram “modelos” que deveriam ser replicados nos processos de modernização capitalistas ao redor do mundo. Esses “modelos”, no entanto, tiveram que se defrontar com uma diversidade de situações sociais, o que levava a diferentes composições de poder, formas de resistências e necessidades de ajustes. Por fim, as classes dominantes locais eram desafiadas a aprofundarem o capital-imperialismo em seus respectivos países, controlando a possibilidade de lutas sociais presentes nos processos originais, portanto “a contrarrevolução preventiva, como sugeriu Florestan Fernandes [...], se torna condição da acumulação burguesa dependente” (Fontes, 2010, pp. 151-152).

Portanto, os militares, juntamente com os civis que assumiram o poder em 1964, atuaram fortemente no combate aos movimentos sociais do campo e garantiram ainda a ampliação da fronteira agropecuária, produzindo novos espaços para a exploração econômica e social das populações camponesas, transformando de forma crescente a terra em capital, o que garantia, em última instância, a acumulação monopolista.

A inserção do Brasil nesse contexto internacional do capital-imperialismo era assegurada pela atuação do Estado brasileiro por meio de diferentes mecanismos: pela mudança no regramento jurídico, pela criação de agências, pela omissão do poder público diante dos casos de expropriação ilegal, pela facilitação da entrada de empresas multinacionais em setores estratégicos e pela posição subalterna assumida diante da divisão internacional do trabalho. Isso pode ser percebido nas políticas de planejamento do Estado, no favorecimento de setores como a mineração e a agropecuária em regiões do Norte e Nordeste, na criação de necessidades da indústria de maquinários e insumos químicos ligadas a um processo de modernização da agricultura, e na ampliação do crédito agrícola e da assistência técnica.

No caso maranhense, as transformações pelas quais passou a estrutura social e econômica estiveram diretamente ligadas à apropriação das singularidades políticas do estado, já que o capital-imperialismo permite a manutenção de antigas estruturas de dominação que não interfiram no processo de ampliação da acumulação capitalista. Nesse cenário, a manutenção de uma estrutura oligárquica, marcada pela polarização entre dois grupos políticos específicos (sarneístas e vitorinistas), assegurava que o Estado pudesse ser reformulado por dentro para viabilizar essa acumulação. Afinal, as disputas entre ambas as facções se davam pela condução do processo e pelo controle da máquina estatal, e não por divergências quanto à essência do projeto modernizador.

Sob essa égide, foi aprovada no Maranhão a Lei de Terras de 1969 (Lei nº 2.979), conhecida como Lei Sarney, a qual autorizava a venda de terras públicas a particulares. Essa legislação, associada a projetos de colonização dos governos federal e estadual, provocou uma mudança profunda na estrutura fundiária local. Tal arranjo impulsionou de forma vertiginosa o processo de expropriação camponesa e abriu espaço para a atuação de grandes corporações nacionais e internacionais.

O resultado dessa política, portanto, foi a intensificação dos conflitos por terra nas áreas desapropriadas para o avanço da agropecuária e para a implantação de grandes projetos minerais e aeroespaciais. Concomitantemente, houve a liberação em massa de mão de obra do campo para as grandes cidades e a garantia de outras formas secundárias de expropriação, como a superexploração do trabalho.

Referências

  • DREIFUSS, René Armand. 1964, a conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981.
  • FERNANDES, Florestan. A revolução burguesa no Brasil: ensaio de interpretação sociológica. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976. 413 p.
  • FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/UFRJ, 2010. 388 p.
  • MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Petrópolis, RJ: Vozes; Buenos Aires: CLACSO, 2000. 320 p.
  • MENDONÇA, Sônia Regina de. A questão agrária no Brasil, V. 5: A classe dominante agrária: natureza e comportamento. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.
  • MOORE Jr., Barrington. Origens sociais da ditadura e da democracia: senhor e camponês na formação do mundo moderno. São Paulo: Martins Fontes, 1983.
  • TOLEDO, Caio Navarro de. 1964: o golpe contra as reformas e a democracia. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 24, nº 47, p. 13-22, 2004. Disponível em: SciELO. Acesso em: 30 set. 2024

Por uma educação para a emancipação: contribuições da pedagogia histórico-critica para o ensino da questão agrária no Maranhão

Por uma educação para a emancipação: contribuições da pedagogia histórico-critica para o ensino da questão agrária no Maranhão

A condição histórica das populações do campo e a forma como estas têm sido sistematicamente alijadas do direito à cidadania nos permitem uma reflexão sobre o papel da educação e, mais especificamente, do ensino de História na elaboração de princípios axiomáticos relacionados à formação da cidadã. Ou seja, o estudo das violações de direitos pelas quais passaram esses sujeitos pode ter um enorme potencial para uma discussão mais profícua com os alunos da educação básica sobre os limites e as potencialidades do ideário cidadão.

A formação para a cidadania tem sido elencada como um dos principais objetivos da educação, de modo geral e, particularmente, para o ensino de História. Acumulam-se, portanto, trabalhos que apontam para a relevância do processo educacional na formação de uma cidadania crítica e atenta às necessidades da vivência em sociedade.

Deve-se observar que essa questão fundamental aparece na própria Constituição Federal, em seu artigo 205, em que se indica como objetivo educacional o “pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Brasil, 1988). E na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que, por sua vez, apresenta a discussão sobre a construção da cidadania nas competências gerais do documento. De acordo com o texto, espera-se que o aluno possa:

Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade (Brasil, 2018, p.9)

Desse modo, a compreensão sobre as noções de cidadania presentes no aparato legal é limitada à manutenção dessa ordem democrática. O olhar sobre o que é ser cidadão, portanto, não escapa de um tipo de cidadania que tem como parâmetro os limites do liberalismo, ou ainda, em conexão com as transformações socioeconômicas do último quartel do século XX, ou seja, do neoliberalismo como política de Estado.

Nessa sociedade neoliberal, pautada por “políticas como o equilíbrio fiscal, desregulação dos mercados, a abertura das economias nacionais e a privatização dos serviços públicos, [...] crítica às democracias de massa” (Fiori, 1998 apud Saviani, 2019, p. 499), a pedagogia é caracterizada pelo discurso do “fracasso da escola pública, justificando sua decadência como algo inerente à incapacidade do Estado de gerir o bem comum. Com isso, advoga-se [...] a primazia da iniciativa privada regida pelas leis do mercado” (Saviani, 2019, p. 500).

Saviani também observa que nem sempre é fácil identificar e caracterizar as novas ideias pedagógicas surgidas no contexto da década de 1990, pois não são marcadas por um núcleo coeso e positivo, principalmente porque suas referências estão nos movimentos que as antecedem. Desse modo, Saviani procura denominá-las pelo uso de anteposições do tipo “pós” e “neo”, tendo como categorias centrais: “neoprodutivismo, neoescolanovismo, neoconstrutivismo, neotecnicismo” (Saviani, 2019, p. 500).

O autor relaciona o neoprodutivismo com o processo de aprofundamento da individualidade. Logo, nesse novo contexto, a preparação para o mercado de trabalho não é mais uma iniciativa dos setores de planejamento do Estado, mas resultado da capacidade de decisão do indivíduo na busca pela sua preparação diante do ambiente de competitividade. Desse modo, o que se torna central é o princípio da empregabilidade, já que a escolarização não garante o acesso ao emprego.

Diante disso, a educação serve como um “investimento em capital humano”. Os graus de escolarização são, desse modo, instrumentos que facilitam o acesso ao emprego, mas que não o garantem, já que na sociedade atual há uma convivência aceitável com altos índices de desemprego. Saviani denomina essa perspectiva de pedagogia da exclusão, pois, de um lado, admite-se que na atual ordem econômica não há espaço para todos; e, de outro, observa-se a crescente automação dos processos produtivos, dispensando de modo cada vez maior a mão de obra.

Trata-se de preparar os indivíduos para [...] se tornarem cada vez mais empregáveis, visando a escapar da condição de excluídos. E, caso não o consigam, a pedagogia da exclusão lhes terá ensinado a introjetar a responsabilidade por essa condição. Com efeito, além do emprego formal, acena-se com a possibilidade de sua transformação em microempresário, com a informalidade, o trabalho por conta própria, isto é, sua conversão em empresário de si mesmo, o trabalho voluntário, terceirizado, subsumido em organizações não governamentais etc. Portanto, se diante de toda essa gama de possibilidades ele não atinge a desejada inclusão, isso se deve apenas a ele próprio, a suas limitações incontornáveis. Eis o que ensina a pedagogia da exclusão (Saviani, 2019, p. 503).

O neoescolanovismo, por sua vez, faz referência ao “aprender a aprender”, que tem como ponto de partida o “escolanovismo” dos anos 1960, que compreendia o indivíduo como um ser dotado de responsabilidade junto ao “corpo social”. Essa concepção, no entanto, tem sido substituída por uma visão que privilegia a necessidade constante de atualização dos indivíduos para um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Segundo Dermeval Saviani, essas mudanças são produto da própria transformação da estrutura produtiva, quando a escola passa a ser adaptada à substituição de uma estrutura econômica keynesiana e de plataforma produtiva fordista, pautada no pleno emprego como instrumento do desenvolvimento, por um pós-keynesianismo e pós-fordismo. Esse novo modelo tem como base principal a exclusão, considerando, por um lado, que não há lugar para todos na ordem econômica vigente, e, por outro, que os processos de automação da produção substituem o “trabalho vivo” pelo “trabalho morto” (capital), maximizando o lucro por meio da mais-valia apoiada na concepção de produtividade do trabalhador (Saviani, 2019).

Essa perspectiva do “aprender a aprender”, que é um traço marcante do neoescolanovismo, é resultado do “Relatório Jacques Delors” ou “Educação: um Tesouro a Descobrir”, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em 1996, que buscou estabelecer diretrizes para a educação do século XXI. Nele, como aponta Saviani, afirma-se que a educação é uma resposta às emergências “de um mundo em rápida transformação” (Delors, 2006 apud Saviani, 2019, p. 506).

Se no escolanovismo o “aprender a aprender” significava a capacitação para a busca de conhecimentos de forma pessoal, na atual perspectiva ele ganha novos contornos: diante da concepção de empregabilidade, o “aprender a aprender” está ligado à constante necessidade de atualização do indivíduo. Portanto, o que predomina é a necessidade ininterrupta de adaptação.

Já o neoconstrutivismo é uma atualização da concepção construtivista que tem como principal referência Jean Piaget, para quem a inteligência “não é um órgão que imprime, que reproduz os dados da sensibilidade, mas que constrói os acontecimentos” (Saviani, 2019, p. 509). No neoconstrutivismo, por outro lado, o foco deixa de ser o desenvolvimento da inteligência e passa a se concentrar em uma “retórica reformista”, que, em sintonia com o pós-modernismo e sua crítica às metanarrativas, obedece frequentemente a regras que lhe fixam a pragmática (Lyotard, 2002 apud Saviani, 2019, p. 509).

Por fim, essas mudanças nas abordagens pedagógicas com base nas estruturas produtivas e, principalmente, no princípio da empregabilidade e da flexibilidade, também se apropria de forma renovada da concepção tecnicista: se no passado essa pedagogia era pautada por princípios como racionalidade, eficiência e produtividade por meio da iniciativa e direção do Estado, hoje ela é definida pela valorização dos mecanismos de mercado e pela redução de custos, por meio da transferência ou divisão de responsabilidades com a iniciativa privada — “parceria é a palavra da moda” (Saviani, 2019, p. 512).

o controle decisivo desloca-se do processo para os resultados. É pela avaliação dos resultados que se buscará garantir a eficiência e produtividade. E a avaliação converte-se no papel principal a ser exercido pelo Estado, seja mediatamente, pela criação das agências reguladoras, seja diretamente, como vem ocorrendo no caso da educação. [...] Trata-se de avaliar os alunos, as escolas, os professores e, a partir dos resultados obtidos, condicionar a distribuição de verbas e a alocação dos recursos conforme os critérios de eficiência e produtividade (Saviani, 2019, p. 512).

Essas concepções – neoprodutivismo, neoescolanovismo, neoconstrutivismo e neotecnicismo – não apenas buscam ajustar o perfil dos indivíduos como trabalhadores, mas também como cidadãos dentro de uma sociedade. Diante dessa perspectiva, o principal objetivo é a produtividade e a maximização da eficiência, seja no trabalho ou na participação social (Saviani, 2019).

No bojo dessas transformações, a história escolar, de acordo com a BNCC, ganha centralidade como formadora de uma cidadania que se baseia na “percepção de que existe uma grande diversidade de sujeitos e histórias” (Brasil, 2018, p. 400). Esse olhar para a diversidade estimularia o “pensamento crítico, a autonomia e a formação para a cidadania” (Brasil, 2018, p. 400). Desse modo, a concepção de cidadania aqui presente deve ser entendida como um elemento limitado de emancipação política, um instrumento que, paradoxalmente, exige adaptação ao diverso, mas permanece fundamentado na imobilidade das estruturas sociais.

Ivo Tonet assinala que, a partir de 1980, o ideário da cidadania passou a ser um lugar-comum no discurso pedagógico, inclusive entre os pedagogos de esquerda. O autor observa que essa concepção de cidadania tem sido historicamente tomada como sinônimo de liberdade, sendo impregnada pelo princípio da propriedade privada, já que na sociedade capitalista a noção de liberdade está diretamente associada à busca da realização pessoal (Tonet, 2005).

Tonet demonstra a partir de Marx, no entanto, que o trabalho é o ato fundante do ser social, pois é a mediação entre o homem e a natureza, que, ao produzir bens materiais, “põe-se como o fundamento de toda e qualquer forma de sociabilidade” (Tonet, 2005, p. 474). Logo, a separação entre vida social e política surge mediante a divisão em classes sociais, sendo, portanto, resultado da propriedade privada.

Portanto, o “ato fundante da sociabilidade capitalista é o ato de compra-e-venda de força de trabalho. Este ato é, necessariamente, gerador de desigualdades sociais e de uma relação de subordinação do trabalho ao capital” (Tonet, 2005, p. 475). Diante disso, a liberdade humana na sociedade capitalista não é integral, mas apenas uma liberdade de contratar, ou seja, de, virtualmente, possuir. “Há, portanto, uma articulação férrea, obviamente não isenta de tensões, entre a matriz econômica (o capital) e a forma jurídico-política (emancipação política; democracia e cidadania)” (Tonet, 2005, p. 475).

Assim, mesmo reconhecendo os aspectos positivos da emancipação política para a humanidade, Tonet adverte que ela é uma “condição para a reprodução da desigualdade social” (Tonet, 2005, p. 475).

O que significa dizer que ela é certamente uma forma da liberdade humana, mas uma forma essencialmente limitada, parcial e alienada de liberdade. O que também significa dizer que, por mais plena que seja a cidadania, ela jamais pode desbordar o perímetro da sociabilidade regida pelo capital. Isto é muito claramente expresso pelo fato de que o indivíduo pode, perfeitamente, ser cidadão sem deixar de ser trabalhador assalariado, ou seja, sem deixar de ser explorado (Tonet, 2005, p. 475).

Embora considere que seja impossível uma educação plenamente emancipadora diante das condições socio-históricas impostas pelo capital, Tonet ressalta que o campo educacional é um espaço de incessante luta, pois o antagonismo de classe possibilita a eclosão de propostas com fundamentos, valores e objetivos diversos (Tonet, 2005).

Sendo assim, Ivo Tonet estabelece alguns requisitos para uma atividade educativa que aponte não apenas para a emancipação política, mas para a emancipação humana. Entre esses requisitos estão: 1) a definição de princípios teleológicos que apontem para o fim das desigualdades, não apenas por meio da emancipação política, mas baseados em propostas concretas para o fim da sociedade de classes, e isso exige uma atuação consciente do educador; 2) a compreensão do processo histórico que fundamenta a sociedade atual e, consequentemente, a prática educacional; 3) a consciência de que a educação sozinha não pode transformar o mundo e garantir a emancipação humana plena, pois direta ou indiretamente ela está sempre a favor da reprodução da ordem social vigente; 4) a necessidade de domínio de conteúdos específicos, “pois a efetiva emancipação da humanidade implica a apropriação do que há de mais avançado em termos de saber e de técnica produzidos até hoje” (Tonet, 2005, p. 481); desse modo, o educador comprometido com uma educação emancipadora atua por meio do conhecimento sobre sua área de atuação e da mediação dos conteúdos ligados à prática social; 5) a “articulação entre as atividades educativas e as lutas desenvolvidas pelas classes subalternas” (Tonet, 2005, p. 481).

Diante disso, mesmo reconhecendo que a emancipação humana é um fim a ser conquistado apenas com a total eliminação das desigualdades entre classes, Tonet aponta para a potencialidade da educação como instrumento que “desperte e fundamente as consciências para a necessidade de uma transformação revolucionária” (Tonet, 2005, p. 481). Portanto, a educação que se fundamenta na prática social deve ir além da adequação imposta pelo currículo e pautar-se pela possibilidade real e consciente de transformação.

Dermeval Saviani, por sua vez, enfatiza a relevância de a prática social ser o ponto de partida e de chegada na atividade educacional. Para ele, deve haver uma constante relação entre a sociedade e a educação; desse modo, a iniciativa não é nem do professor, como na escola tradicional, nem do aluno, como na Escola Nova: “o ponto de partida seria a prática social, 1º passo que é comum a professor e alunos” (Saviani, 2011, p. 79).

Por fim, retornando ao tema com o qual iniciamos este capítulo, as próprias concepções de cidadania e emancipação política podem ser criticadas diante da interpretação do mundo humano como algo determinado socio-historicamente. Nesse esforço intelectual de percepção dos problemas vivenciados e da determinação de suas raízes socioeconômicas, políticas e culturais, o intercâmbio entre os conhecimentos sobre a estrutura agrária e suas conexões com os interesses das classes dominantes podem contribuir para uma reflexão sobre os limites dessa emancipação política.

Dado que essa estrutura agrária excludente ainda se faz presente na realidade social vivenciada direta ou indiretamente pelos alunos, as experiências acumuladas pelas populações do campo permitem uma reflexão sobre as formas de apropriação do conceito de cidadania. Seguindo o pensamento de José de Souza Martins (1998) destacado no início deste trabalho, os camponeses só são entendidos como sujeitos politicamente iguais no momento da privação dos direitos que eles supunham ter em relação à ocupação da terra, que se baseava principalmente na concepção de anterioridade. Mas esse direito consuetudinário lhes é usurpado pela ação do ato jurídico perfeito baseado no contrato escrito, que muitas vezes é obtido de forma fraudulenta.

O debate que se estabelece, portanto, é a relação entre a intensa expropriação da população rural e a liberação da mão de obra dos camponeses como produto das transformações impostas pelo capital-imperialismo. Essas mudanças ainda produzem resultados, inclusive diretos, na vida dos alunos, de sua família e da sociedade como um todo. A partir dessa perspectiva, é possível dimensionar os limites conceituais da cidadania no contexto da democracia liberal, pois ela está ligada a uma liberdade que é por si só produtora de desigualdades: uma liberdade de mercado, que simplifica as relações humanas ao princípio de compra e venda, inclusive da força de trabalho, limitando as possibilidades de atuação humana e menosprezando sua satisfação em troca da necessidade de adaptação.

Essa perspectiva contribui para um posicionamento ativo na atividade docente nas aulas de História. Compreender os limites do próprio currículo e seu papel dentro de uma conjuntura social previamente determinada é um ponto de partida fundamental para uma atuação crítica e uma mediação pedagógica que potencialize os alunos para uma atuação mais efetiva na prática social.

Portanto, compreende-se que, ao associar-se à pedagogia histórico-crítica, à história local e à historiografia sobre a ditadura empresarial-militar, é possível abordar três questões fundamentais tratadas neste trabalho: 1) romper com os limites de um currículo que se associa a uma estrutura social que perpetua a desigualdade por meio de um discurso meritocrático e, portanto, pautado na adaptabilidade; 2) complexificar uma visão homogênea da ditadura empresarial-militar, que tem como polo de criação o centro-sul do país; 3) permitir um aprofundamento do entendimento do aluno sobre a realidade vivida e universal, dando-lhe instrumentos para a atuação nessa realidade.

Assim, os conhecimentos construídos sobre a estrutura social e política do estado do Maranhão podem ser associados ao debate sobre a historiografia da ditadura e à ascensão de uma conjuntura socioeconômica que marca a segunda metade do século XX. Isso permite um olhar mais aprofundado sobre os aspectos que marcam a expropriação das populações do campo, a manutenção de estruturas de poder social e político, os interesses que sustentam as narrativas historiográficas sobre esse processo e as possibilidades de atuação, por meio do reconhecimento das formas de resistência.

Tudo isso se associa, finalmente, ao reconhecimento dos limites do conceito de emancipação política proposto pelos currículos escolares, que podem ser refletidos na própria trajetória dos movimentos sociais. Isso ocorre, pois, esses movimentos, na esteira das possibilidades geradas pelo discurso de democratização defendido entre 1945 e 1964, exigiram a ampliação de direitos mesmo diante de uma democracia liberal e excludente. No entanto, ao contrário disso, foram fortemente combatidos, tiveram suas terras expropriadas e foram empurrados de forma violenta para a periferia das grandes cidades. Esse processo não ocorreu, contudo, sem resistência. Ela ainda é uma marca desses movimentos, que se organizam, ainda hoje, para fazer frente ao avanço da fronteira agropecuária.

No mesmo bojo da concepção de adaptação, também se encontra o fetiche pela inserção da tecnologia, principalmente a partir da lógica da computação na educação básica. Considerando que o produto educacional resultante do presente trabalho é um website, é fundamental refletir sobre as perspectivas predominantes nas recentes políticas públicas sobre a obrigatoriedade da computação na escola e sobre os interesses socioeconômicos que a determinam.

Referências

  • BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidente da República, [2026]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 25 jun. 2024.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 30 jun. 2024.
  • FONTES, Virgínia. O Brasil e o capital-imperialismo: teoria e história. Rio de Janeiro: EPSJV/UFRJ, 2010. 388 p.
  • MARTINS, José de Souza. A vida privada nas áreas de expansão da sociedade brasileira. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da vida privada no Brasil: 4. Contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • SAVIANI, Dermeval. História das ideias pedagógicas no Brasil. 5. ed. rev. e ampl. Campinas: Autores Associados, 2019.
  • SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. rev. Campinas: Autores Associados, 2011.
  • TONET, Ivo. Educar para a cidadania ou para a liberdade? Perspectiva, Florianópolis, v. 23, n. 2, p. 469-484, jul./dez. 2005. Disponível em: UFSC. Acesso em: 07 mar. 2024.

Possibilidades pedagógicas do Observatório do Campo Maranhense

Conteúdo sobre os usos pedagógicos do mapa.

Uma abordagem interdisciplinar por meio de ferramentas tecnológicas: o Observatório do Campo Maranhense

Uma abordagem interdisciplinar por meio de ferramentas tecnológicas: o Observatório do Campo Maranhense

O tema das tecnologias no processo de ensino-aprendizagem tem sido bastante recorrente. Na verdade, há uma certa fetichização das tecnologias digitais da informação e comunicação (TDICs) na educação. Esse fetiche está no bojo da concepção sobre as metodologias ativas, outro tema onipresente no debate sobre o ensino.

Nesse contexto, as tecnologias digitais vêm sendo entendidas no meio educacional como um fim em si mesmas, como se elas por si só pudessem transformar as dificuldades enfrentadas no meio escolar. Portanto, é preciso ir além e refletir sobre os limites dessas tecnologias, compreendê-las como um instrumento eficaz nos objetivos de aprendizagem esperados, como um mecanismo comunicacional com potencialidades reconhecidas para a formulação de propostas didáticas, mas não como um substituto do trabalho do professor, muito menos como uma fórmula mágica que garante a aprendizagem significativa.

Recentemente, a partir da atuação de organizações de classe, principalmente representantes de grandes empresas de tecnologia foi criado, por meio da Resolução CNE/CEB nº 1/2022 de 4 de outubro de 2022, a BNCC computação, como complemento a Base Nacional Comum Curricular, que estabelecia um conjunto de habilidades distribuídas em todas as etapas e anos da educação básica, a serem contempladas a partir dos eixos: pensamento computacional, mundo digital e cultura digital (Brasil, 2022).

Uma das concepções básicas do documento é a resolução de problemas. Desse modo, a presença da computação na educação básica serviria como uma habilidade de compreensão e decomposição de problemas. Larissa Ruis observa que o documento “incentiva a inovação ‘crítica’ e ‘criativa’ por meio da promoção de ‘soluções computacionais’, as quais disseminam, por isso, a ideologia do solucionismo computacional” (Ruis, 2025, p. 117).

Tendo o computador como instrumento basilar salvacionista com potencial para ‘resolver problemas’, o discurso da inovação se destaca, aliado à apropriação das demandas do capital, por meio de uma visão mercadológica de inserção profissional. Em um projeto de inovação educacional cada vez mais intenso, esse enfoque busca acentuar a mercantilização em benefício do setor privado, disfarçada de desenvolvimento social e econômico, propiciada por esse novo Mundo Digital, mas que mantém raízes antigas (Ruis, 2025. p.117).

Larissa Ruis observa que a diretriz curricular de computação, complementar à BNCC, faz uma inversão de valores fundamentais na relação humano-tecnologia, pois se baseia em uma lógica de simplismo sistemático e eficiente do pensamento, como se o ser humano pudesse atuar como uma máquina. “Sendo assim, o Pensamento Computacional – eixo de maior ênfase nos documentos [...] – pode ser visto como uma tentativa de naturalizar a substituição tecnológica, mesmo que, parcialmente, invertendo os valores humano-tecnologia” (Ruis, 2025, p. 119).

Além disso, a autora destaca que o documento se baseia em uma leitura de “soberania da racionalidade técnica”, como se fosse pensamento crítico, e na mercantilização da educação, buscando moldá-la em um “produto consumível” (Ruis, 2025, p. 120). Ruis acrescenta que, no documento, o pensamento crítico é “cooptado para servir aos interesses do capital, evidenciando a performatividade do discurso das soluções computacionais” (Ruis, 2025, p. 120). Assim, as tecnologias são entendidas como elementos fundamentais para a solução de problemas complexos.

Portanto, a criação dessa política educacional dialoga diretamente com a concepção de adaptabilidade criticada por Dermeval Saviani (2011) na pedagogia neoescolanovista, pois o foco fundamental não é a crítica da realidade como um todo e as possibilidades de mudança no mundo, mas a resolução de problemas imediatamente postos. Sendo assim, a leitura crítica a que o documento se propõe no eixo cultura digital não ultrapassa a lógica de interpretação fechada da realidade posta.

Além disso, Luiz Reis observou que a atuação de think tanks como o Centro de Inovação para a Educação Brasileira (CIEB)buscou, entre outras coisas, garantir o financiamento de mercadorias produzidas pelas edtechs, por meio da criação de demandas direcionadas ao setor público.

O dito ecossistema de inovação educacional abrange capitais de vários segmentos da economia, que se articulam em torno do Cieb para propor e induzir novas políticas educacionais, alimentando novos modelos de negócio. Essa articulação em rede favorece a industrialização da educação básica, com possibilidade de escalonar a “produção” e induzir as compras estatais, ensinando os capitais o caminho para acessar o fundo público e criando condições para que essa etapa da educação possa ser financeirizada (Reis, 2025, p.174).

Desse modo, o Observatório do Campo Maranhense não pretende apresentar-se como uma mera solução tecnológica no meio educacional; ele é um produto de natureza comunicacional. A tecnologia é utilizada apenas como intermediário, sendo o site uma plataforma para comunicar e propiciar a reflexão sobre o processo de expansão fundiária no Maranhão durante a segunda metade do século XX e seus respectivos impactos.

O produto faz uso de diferentes instrumentos tecnológicos, como o mapa interativo e a apresentação de materiais audiovisuais, além de exigir conexão com a internet; no entanto, não pretende substituir o papel fundamental exercido pelo professor e pelo aluno no processo de mediação do conhecimento.

Defender a importância criativa e crítica do professor na relação com as tecnologias no ambiente educacional é fundamental diante das exigências direcionadas a ele neste contexto de hipertrofia da lógica computacional e de soluções informáticas presentes no discurso da UNESCO e da BNC – Formação. Como observa Andréa Silva (2019), um dos pressupostos básicos do discurso da UNESCO é a ênfase nos elementos dispostos pela Teoria do Capital Humano ao propagar a ideia de que a construção de competências técnicas e profissionais para a inserção no mundo do trabalho, quando certificadas pelos sistemas educacionais, poderá contribuir para a ampliação da produtividade econômica (Silva, 2019, p. 12). Essa perspectiva foi incorporada na elaboração de um conjunto de competências e habilidades definidas para a atividade docente pela Resolução CNE/CP nº 2, de 20 de dezembro de 2019, na qual há diversas menções à necessidade de criar e utilizar ferramentas tecnológicas e de informação e comunicação (Brasil, 2019).

Sendo assim, é importante compreender o professor não como um mero reprodutor de técnicas e de soluções tecnológicas, mas como um sujeito inserido ativamente no processo educacional que, por meio da relação que estabelece com a prática social, pode conferir significado à aprendizagem. Logo, não são as soluções tecnológicas que permitem uma aprendizagem significativa, mas a relação que o docente estabelece com a realidade imediata e concreta dos alunos.

Desse modo, o pensamento crítico pode ser produzido não como uma mera performance diante de soluções imediatas e complexas na lógica do capital, mas como uma possibilidade de reflexão ontológica e axiológica da realidade, permitindo um olhar para a natureza do mundo em que se está inserido, sua pluralidade, seus condicionantes e os caminhos para a transformação.

Concomitantemente ao tema das tecnologias na educação, outro ponto fundamental para a elaboração do Observatório do Campo Maranhense é a interdisciplinaridade. Inicialmente, a pesquisa havia sido pensada para ser aplicada a discentes do 3º ano do Ensino Médio; no entanto, a experiência docente em turmas do 8º e 9º ano do Ensino Fundamental — produto das distorções próprias da educação pública brasileira — e as reflexões a respeito da interdisciplinaridade ajudaram a perceber a potencialidade da temática sobre a questão agrária no Maranhão. Essa abordagem conecta a ditadura empresarial-militar e suas particularidades no estado a uma compreensão mais aprofundada sobre a estrutura do capitalismo na segunda metade do século XX e suas dinâmicas transacionais, que legam ao Brasil a condição de nação dependente, cujos impactos podem ser percebidos a partir da história da população camponesa maranhense, temas recorrentes nas disciplinas de História e Geografia.

A abordagem interdisciplinar permite despertar para a relação entre objetos de conhecimento que podem ser articulados, o que viabiliza um olhar mais complexo da realidade, sobretudo porque os conhecimentos aparecem de forma extremamente fragmentada nas disciplinas.

No caso específico da modernização dependente, percebe-se que os estudos sobre a mecanização do campo e a liberação da mão de obra aparecem de forma desarticulada dos estudos históricos sobre a privatização da terra e seus impactos no Brasil. Da mesma forma, a construção histórica do capitalismo e suas características imperialistas contemporâneas não são colocadas em conexão com os interesses privados que dominaram a conjuntura da ditadura brasileira na segunda metade do século XX, nem com a relação desse processo com o contexto global de construção de uma economia dependente no Brasil.

Junta-se a isso a dificuldade de interação entre os conhecimentos nacionalizados por meio da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e aquilo que tem sido compreendido no currículo nacional como parte diversificada. Mesmo com a construção de um Documento Curricular do Território Maranhense (DCT-MA), que, em tese, busca estipular objetos de conhecimento que se relacionam com a realidade local, essa articulação esbarra na hipervalorização dos conhecimentos nacionalizados pelo Plano Nacional do Livro Didático (PNLD) e na falta de critérios mais específicos de articulação entre conhecimentos gerais e parte diversificada. Soma-se a esse cenário, no caso específico do conhecimento histórico, a compreensão tênue da complexidade da realidade nacional.

De acordo com Juan Suero:

a palavra interdisciplinaridade evoca a "disciplina" como um sistema constituído ou por constituir, e a interdisciplinaridade sugere um conjunto de relações entre disciplinas abertas sempre a novas relações que se vai descobrindo. Interdisciplinar é toda interação existente dentre duas ou mais disciplinas no âmbito do conhecimento, dos métodos e da aprendizagem das mesmas. Interdisciplinaridade é o conjunto das interações existentes e possíveis entre as disciplinas nos âmbitos indicados (Suero, 1986 apud Lenoir, p. 161)

Assim, trata-se de uma abordagem mais holística do objeto de estudo, a partir de diferentes pontos de vista e de contribuições de diferentes campos do pensamento que, à primeira vista, parecem fechados, mas são intercambiáveis dialeticamente. Além disso, como apontou Ivani Fazenda, a interdisciplinaridade vai além dessa relação entre as disciplinas: ela é uma atitude diante da questão do conhecimento. “A interdisciplinaridade pauta-se numa ação em movimento. Pode-se perceber esse movimento em sua natureza ambígua, tendo como pressuposto a metamorfose, a incerteza” (Fazenda, 2002, p. 180).

Marília Pires observa que “a interdisciplinaridade apareceu, então, para promover a superação da superespecialização e da desarticulação entre teoria e prática, como alternativa à disciplinaridade” (Pires, 1998, p. 177). Desse modo, segundo a autora, a proposta interdisciplinar surge como forma de crítica “à organização social capitalista, à divisão social do trabalho e à busca da formação integral do gênero humano” (Pires, 1998, p. 177). Assim, complementando o debate de Ivani Fazenda sobre o caráter atitudinal que envolve a interdisciplinaridade, compreende-se o seu papel de relação com a realidade concreta, com a prática social. Como especificado por Saviani, “a prática exige a reflexão teórica; é a superação da ação não pensada pela prática concreta, refletida, a ação concreta pensada” (Saviani, 1991 apud Pires, 1998, p. 177).

Assim, quando o ponto de partida é a prática social, o diálogo entre os temas torna-se obrigatório, mas natural, já que a realidade em si é multifacetada, complexa e dotada de elementos intercambiáveis, como destaca Frigotto:

“a interdisciplinaridade se apresenta como problema pelos limites do sujeito que busca construir o conhecimento de uma determinada realidade e, de outro lado, pela complexidade desta realidade e seu caráter histórico. Todavia esta dificuldade é potencializada pela forma específica que os homens produzem a vida de forma cindida, alienada, no interior da sociedade de classes.” (Frigotto, 1995, p.31).

Yves Lenoir destaca que há diferenças fundamentais entre a interdisciplinaridade científica e a interdisciplinaridade educacional. Em seu quadro analítico, o autor explicita as principais características de cada uma delas, conforme se observa a seguir:

Maiores distinções entre interdisciplinaridade científica e interdisciplinaridade escolar

Interdisciplinaridade científica Interdisciplinaridade escolar
Finalidades Produzir novos conhecimentos Difusão de conhecimentos
Objetos Tem por objeto as disciplinas científicas. Tem por objeto as disciplinas escolares.
Modalidades de aplicação Implica a noção de pesquisa: Tem o conhecimento como sistema de referência. Implica a noção de ensino, de formação: Tem como sistema de referência o sujeito aprendiz e sua relação com o conhecimento.
Sistema referencial Retorno à disciplina na qualidade de ciência (saber sábio). Retorno à disciplina como matéria escolar (saber escolar), para um sistema Referencial que não se restringe às ciências.
Consequência Conduz à produção de novas disciplinas segundo diversos processos; às realizações técnico-científicas. Conduz ao estabelecimento de ligações de complementaridade entre as matérias escolares.

Fonte: adaptado de Lenoir, 1998, p. 52

Desse modo, há um elemento axiológico fundamental na interdisciplinaridade escolar, que impõe a necessidade de romper as barreiras entre as disciplinas estudadas como forma de estabelecer ligações consistentes entre teoria e prática.

Alejandro Arias afirma que é comum esse distanciamento entre teoria e prática, pois, frequentemente, o docente foca no elemento teórico, acreditando que o aluno fará a relação com sua realidade por conta própria, ou realiza ele mesmo essa contextualização. No entanto, “é necessário que o docente procure no aluno os vínculos práticos e faça com que o aluno os identifique na teoria apresentada” (Arias, 2023, p. 1).

Além disso, Yves Lenoir apresenta três planos em que pode ocorrer a interdisciplinaridade escolar. O primeiro é o plano da interdisciplinaridade curricular, base sobre a qual se constroem os demais. Este plano é produto de uma análise sistemática de programas de estudo com o intuito de incorporar conhecimentos em um todo, buscando preservar as particularidades disciplinares ao mesmo tempo em que garante a “complementaridade dentro de uma perspectiva de troca e de enriquecimento” (Lenoir, 1998, p. 57).

O segundo plano é o da interdisciplinaridade didática, caracterizada por “suas dimensions conceituais e antecipativas; trata da planificação, da organização e da avaliação da intervenção educativa” (Lenoir, 1998, p. 58), ou seja, faz parte da etapa de organização do trabalho docente. Essa etapa não consiste na busca por uma receita pronta, mas por “instrumentos conceituais que possuem uma dimensão conjuntural de maneira limitativa, e que servem para guiar a concepção de práticas educativas interdisciplinares” (Lenoir, 1998, p. 58).

Portanto, impõe-se, novamente, a função fundamental do professor no processo de mediação didática e sua capacidade de estabelecer conexões significativas entre a prática social e as possibilidades de superação mediante o terceiro plano da interdisciplinaridade: a interdisciplinaridade pedagógica. Como destaca Yves Lenoir:

Ela assegura, na prática, a colocação de um modelo ou de modelos didáticos interdisciplinares inseridos em situações concretas da didática. Mas, obrigatoriamente, essa atividade prática não pode se efetuar sem levar em conta um conjunto de outras variáveis que agem e interagem na dinâmica de uma situação de ensino - real aprendizagem (Lenoir, 1998, p. 58).

É nessa dinâmica real da sala de aula que a abordagem pedagógica pode ser produzida. É por meio do contato com a realidade e de seu dimensionamento que se viabilizam os instrumentos de intercâmbio entre as disciplinas, levando em conta as possibilidades estabelecidas pelo currículo em vigor e compreendendo, também, os limites impostos pela estrutura curricular e pela própria prática pedagógica (Lenoir, 1998, p. 59).

Por sua característica diversa e multifacetada, a história agrária é, por natureza, interdisciplinar, pois depende de um esforço intelectual que ultrapassa os campos delimitados do conhecimento disciplinar, exigindo um diálogo constante entre as áreas do saber. Esse esforço pode ser percebido na multiplicidade de temas que a envolve, já que:

a história agrária, como uma modalidade de história social da agricultura, cujo objeto seria constituído pelas formas de apropriação e uso do solo, pelo estatuto jurídico e social dos trabalhadores rurais (produtores diretos); nessa ótica, caberia ao estudo dos sistemas agrários, objeto central da análise, dar conta das relações de produção e das tipologias agrárias (Linhares, 1997, p. 247).

Desse modo, ao pensarmos um tema como a questão agrária no contexto da ditadura empresarial-militar, diversas questões se impõem: são elas de ordem econômico-produtiva, demográfica, físico-natural, socioeconômica, política e jurídica, em seus aspectos legais e consuetudinários, entre outros. Assim, só uma abordagem aberta a uma visão interdisciplinar é capaz de atender a tamanha diversidade e complexidade.

Ao pensarmos a mediação dos conhecimentos sobre esse tema com alunos da educação básica, é inevitável observar as potencialidades constituídas por uma abordagem interdisciplinar, que podem viabilizar uma leitura mais orgânica da realidade em que se insere o discente e dos condicionantes que a sustentam.

Circe Bittencourt destaca, com Ivani Fazenda, que a prática interdisciplinar na escola exige um engajamento do professor e uma mudança de postura diante do conhecimento escolar, mas observa que um olhar sobre as práticas pedagógicas evidencia a dificuldade na realização de trabalhos dessa natureza (Bittencourt, 2009, p. 255).

Bittencourt questiona se a existência de disciplinas seria um elemento limitador da interdisciplinaridade e conclui que a própria prática interdisciplinar exige a existência de disciplinas que possam estabelecer vínculos epistemológicos. Desse modo, a autora salienta que, para uma prática interdisciplinar significativa na escola, o professor deve ter um aprofundamento em seu próprio campo de conhecimento, o que garantirá uma abordagem sem superficialidade, permitindo uma leitura profunda dos temas (Bittencourt, 2009, p. 256).

Marta Brodbeck, por sua vez, destaca que superar a fragmentação das disciplinas para tornar a aprendizagem significativa “é, sem dúvida, o grande desafio da educação ao longo do tempo” (Brodbeck, 2012, p. 20). Segundo a autora, isso é ampliado diante da velocidade com que as informações circulam na atualidade. Além disso:

A organização compartimentada das disciplinas é um obstáculo para que o aluno realize uma integração interna. Contudo, mesmo quando existe uma disposição em experimentar a interdisciplinaridade, essa prática continua sendo, de modo geral, uma experiência de excepção dentro da escola, por que de alguma forma torna-se um grande desafio engendrar uma organização que viabilize a interação entre os docentes das diferentes disciplinas para desenvolver o trabalho interdisciplinar (Brodbeck, 2012, p.20)

Abaixo apresenta-se um esquema das disciplinas e temas abordados de forma interdisciplinar no Observatório do Campo Maranhense, nas disciplinas de História, Geografia, Ciências da Natureza do 8º e 9º ano do ensino fundamental e nos Temas Contemporâneos Transversais.

Temas curriculares abordados de forma interdisciplinar no Observatório do campo Maranhense

Temas curriculares abordados de forma interdisciplinar no Observatório do campo Maranhense

Como se pode observar, o debate sobre o processo de modernização dependente no Maranhão permite a mediação de uma pluralidade de conhecimentos que perpassam: a constituição histórica da estrutura fundiária e sua manutenção e readequação ao longo do tempo; as disputas em torno de projetos de poder; a conformação de estruturas socioeconômicas; a composição do cenário econômico global; o papel preponderante de determinadas nações sobre outras, considerando, principalmente, o cenário latino-americano; os impactos causados pelas mudanças decorrentes do processo de modernização dependente em comunidades camponesas e, consequentemente, as transformações no cenário demográfico e na estrutura populacional entre o espaço urbano e rural; e, por fim, o impacto ambiental decorrente desse conjunto de transformações.

Nesse cenário, a interdisciplinaridade não pode ser entendida como um roteiro desarticulado de contribuições das diversas áreas para o tema, mas como um conjunto coerente e coeso que permite tecer um cenário amplo das questões que compõem o debate sobre os usos da terra e os projetos de poder que condicionam esses usos

A fundamentação teórico-metodológica exposta, pautada na crítica ao fetichismo tecnológico e na defesa de uma interdisciplinaridade articulada à prática social, encontra sua dimensão concreta no desenvolvimento do Observatório do Campo Maranhense. A seguir, detalha-se a arquitetura e a interface deste produto educacional, descrevendo como os pressupostos discutidos foram revertidos em ferramentas digitais destinadas à mediação do saber sobre a modernização conservadora e a questão agrária no Maranhão.

Referências

  • ARIAS, Alejandro Rincón. Interdisciplinaridade escolar: dificuldades na implementação em uma instituição de ensino do interior do amazonas. Revista FT, v. 27, ed. 119. fev. 2023. Disponível em: Revista FT. Acesso em: 18 de jun. de 2026
  • BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília, DF: MEC, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/. Acesso em: 30 jun. 2024.
  • BRASIL. Resolução CNE/CP n.º 2/2019, de 20 de dezembro de 2019. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura). Conselho Nacional de Educação. Disponível em: MEC. Acesso em: 18 jun. 2026.
  • BRASIL. Parecer CNE/CEB Nº: 2/2022. Normas sobre Computação na Educação Básica – Complemento à Base Nacional Comum Curricular (BNCC). 2022. Diário Oficial da União de 3/10/2022, Seção 1, Pág. 55. Disponível em: Gov.br. Acesso em: 16 jun. 2024.
  • BITTENCOURT, Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. 3ªed. São Paulo: Cortez, 2009
  • BRODBECK, Marta de Souza Lima. Vivenciando a história: metodologia de ensino de história. Curitiba: Base Editorial, 2012, 184 p.
  • FAZENDA, Ivani (Org.). Dicionário em construção: interdisciplinaridade. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2002.
  • FRIGOTTO, G. A interdisciplinaridade como necessidade e como problema nas ciências sociais. In: BIANCHETTI. L., JANTSCH. A. Interdisciplinaridade: para além da filosofia do sujeito. Petrópolis: Vozes. 1995
  • LENOIR, Yves. Didática e interdisciplinaridade: uma complementaridade necessária e incontrolável. In: FAZENDA, Ivani. (. Didática e interdisciplinardiade. 17ª. ed. Campinas: Papirus, 2012. p. 45-76.
  • LINHARES, Maria Yeda. História Agrária. In: CARDOSO, Ciro Flamarion; VAINFAS, Ronaldo (orgs). Domínios da história: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.
  • PIRES Marília Freitas de Campos, Multidisciplinaridade, Interdisciplinaridade e Transdisciplinaridade no Ensino. Interfaces – Comunic, Saúde, Educ. nº 2. 1998. Disponivel em: https://doi.org/10.1590/S1414-32831998000100010. Acesso em: 17 de jun. 2026
  • REIS, Luiz Henrique Fernandes dos. Capitais Conectados: Decodificando uma Rede de Influências do Capital para a Transformação Digital da Educação Básica. Tese (Doutorado). Programa de Pós-graduação em Educação. Cento de Ciências da Educação. Universidade Federal de Santa Catarina. Florianópolis: 2025. Disponível em: UFSC. Acesso em: 18 de jun. de 2026
  • RUIS, Larissa Salarolli. Por uma outra Informática Educativa: perspectivas políticas, curriculares e práticas discursivas docentes. Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Faculdade de Educação. 2025. 320 f. Disponível em: UERJ. Acesso em: 15 de jun. 2026
  • SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. rev. Campinas: Autores Associados, 2011.
  • SILVA, Andréa Villela Mafra da. Tecnologias e Educação: o discurso da UNESCO. Educação, 44, e65/ 1–17. 2019. Disponível em: https://doi.org/10.5902/1984644437288. Acesso em: 17 de jun. de 2026

Dicionário Histórico-biográfico da Ditadura Empresarial-militar no Maranhão

Fontes para o ensino de História da questão agrária no Maranhão Contemporâneo

Subpáginas e Acervos Disponíveis

Selecione uma das temáticas ou documentos históricos abaixo para explorar o conteúdo em sala de aula.

Documento Histórico

Projetos agropecuários implantados até setembro de 1981

Registros, incentivos fiscais e expansão de projetos agropecuários instalados no Maranhão até setembro de 1981, essenciais para compreender a territorialização do capital no campo.

Documento Histórico

As mais conhecidas empresas localizadas na área da COMARCO

Relação das principais empresas e grupos agropecuários atuantes na área da COMARCO (Comissão para o Desenvolvimento da Área do Maranhão, Pará e Goiás), evidenciando a concentração fundiária e a ocupação empresarial da região.

Projetos agropecuários implantados até setembro de 1981

Contexto: Levantamento Elaborado por Alberto Arcangeli a partir de dados da Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) e Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM).

Fonte: ARCANGELI, Alberto. O mito da terra: uma análise da colonização da Pré-Amazônia Maranhense. São Luís: UFMA/PPPG/EDUFMA, 1987, p. 122-128.

Documento: Levantamento de Projetos Agropecuários

Razão Social Microrregião Ano de Aprovação Objetivos de Produção Área (ha.) Nº de Empregos FONTE
1 Agro Matary S/A Industrial Pindaré 1974 Pecuária p/corte 16.120 122 SUDENE
2 Agroindustrial Campo Novo S/A Pindaré 1978 Pecuária p/corte; arroz 3.814 24 SUDENE
3 Agropastoril e Industrial Tucumã Pindaré 1979 Pecuária p/corte 20.841 114 SUDENE
4 Agroindustrial N.S. Fátima S/A Pindaré 1980 Pecuária p/corte 24.307 67 SUDENE
5 Agropecuária Vale do Matary S/A Pindaré 1981 Pecuária p/corte 8.645 47 SUDENE
6 Jeovah Agropecuária Pindaré 1970 Pecuária p/corte 4.429 19 SUDENE
7 Cia Agrícola Vale do Zutina Pindaré 1977 Pecuária p/corte 24.586 91 SUDENE
8 São Bento Agropecuária S/A Pindaré 1980 Pecuária p/corte 8.085 71 SUDENE
9 Maranhão Agropastoril S/A Pindaré 1981 Pecuária p/corte 22.000 65 SUDENE
10 Cia Vale do Buriti Pindaré 1979 Pecuária p/corte 10.334 98 SUDENE
11 Cia Agropecuária Meio Norte Mearim 1980 Pecuária p/corte 4.016 59 SUDENE
12 Junior Agropecuária S/A Mearim 1972 Pecuária p/corte 2.356 35 SUDENE
13 Maguary Agropecuária S/A Mearim 1970 Pecuária p/corte; arroz, amendoim 5.000 30 SUDENE
14 Mearim Agroindustrial S/A Mearim 1976 Pecuária p/corte; leite; arroz 8.064 30 SUDENE
15 Cia Agropecuária do Nordeste Mearim 1973 Pecuária p/corte; arroz; milho 4.033 46 SUDENE
16 Agroindústria Entre Rios S/A Gurupi 1979 Pecuária p/corte; madeira 18.964 92 SUDENE
17 Empreendimentos Agroindustriais Reunidos S/A Alto Mearim e Grajaú 1972 Pecuária p/corte 11.926 44 SUDENE
18 Soberana Agroindustrial S/A Alto Mearim e Grajaú 1972 Pecuária p/corte 17.642 69 SUDENE
19 Cia Agroindustrial e Pecuária Pericumã Baixada Ocidental 1973 Pecuária p/corte 6.000 70 SUDENE
20 Indústria Pecuária Pinheirense S/A Baixada Ocidental 1971 Pecuária p/corte; leite; queijo 3.786 54 SUDENE
21 Agropastoril Maranhense S/A Baixada Ocidental 1970 Pecuária p/corte; leite; queijo 3.865 39 SUDENE
22 Búfalos Bovinos do Maranhão S/A Baixada Ocidental 1971 Pecuária p/corte; leite 4.327 24 SUDENE
23 Agropecuária Maranhense S/A Baixada Ocidental 1978 Pecuária p/corte; arroz 4.407 32 SUDENE
24 Agropastoril Iguará S/A Itapecuru 1969 Pecuária p/corte; arroz 13.044 24 SUDENE
25 Agropecuária Norte Itapecuru 1971 Pecuária p/corte; arroz; amendoim 3.700 43 SUDENE
26 Agropastoril Cantanhede S/A Itapecuru 1971 Pecuária p/corte 2.008 57 SUDENE
27 Agropecuária Tamarindo S/A Itapecuru 1981 Pecuária p/corte 8.275 50 SUDENE
28 Cia Cachucha Pastoril Itapecuru 1970 Pecuária p/corte; leite 17.501 115 SUDENE
29 Nazaré Agroindustrial Itapecuru 1971 Pecuária p/corte; arroz 1.980 16 SUDENE
30 Org. Codoense Agroindustrial S/A Itapecuru 1970 Pecuária p/corte; arroz; amendoim 3.384 80 SUDENE
31 Cia Corrente Agropecuária S/A Itapecuru 1981 Pecuária p/corte; arroz 7.415 50 SUDENE
32 Verde-Negro Agropecuária S/A Itapecuru 1970 Pecuária p/corte 5.977 36 SUDENE
33 Cia Agrop. e Ind. de Coroatá S/A Itapecuru 1969 Pecuária p/corte; arroz; amendoim 4.872 58 SUDENE
34 Cia Pajeú do Maranhão Itapecuru 1976 Pecuária p/corte 3.977 9 SUDENE
35 Cia Agrícola Mata Escura Itapecuru 1980 Pecuária p/corte; arroz 10.000 80 SUDENE
36 Empreendimentos Rurais J. Farias S/A Itapecuru 1972 Pecuária p/corte; caju 12.025 58 SUDENE
37 Imperial Agroindust. do Maranhão S/A Itapecuru 1980 Pecuária p/corte 8.394 74 SUDENE
38 Jundiaí Indl. Agropecuária S/A Itapecuru 1968 Pecuária p/corte; amendoim; arroz; mandioca; milho 7.536 120 SUDENE
39 Monte Cristo Agroindustrial S/A Itapecuru 1972 Pecuária p/corte; arroz 8.098 30 SUDENE
40 Cia Agroindustrial Vale do Munim Alto Munim 1972 Pecuária p/corte 2.520 27 SUDENE
41 Cia Matos Novos Vale do Itapecuru Alto Itapecuru 1977 Pecuária p/corte; algodão 6.026 26 SUDENE
42 Columbi Agroindustrial S/A Alto Itapecuru 1977 Pecuária p/corte 10.219 59 SUDENE
43 Pecuária Pastos Verdes S/A Alto Itapecuru 1980 Pecuária p/corte; arroz 9.096 64 SUDENE
44 Agropecuária Carafistula S/A Alto Itapecuru 1979 Pecuária p/corte; algodão 3.666 24 SUDENE
45 Fazenda de Rebanho p/o Abastecimento do Vale do Parnaiba S/A Baixo Parnaíba 1969 Pecuária p/corte 2.732 45 SUDENE
46 Cia Agropecuária do Maranhão Baixo Parnaíba 1980 Pecuária p/corte 7.000 76 SUDENE
47 Cia Vale do Rio Sereno Agroindustrial Chapadas do Sul 1979 Pecuária p/corte 5.072 48 SUDENE
48 Cia Vale do Rio Sereno Agroindustrial Chapadas do Sul 1978 Pecuária p/corte 5.837 34 SUDENE
49 Pontes S/A Agropastoril Baixo Balsas 1972 Pecuária p/corte; arroz; mamona 14.330 62 SUDENE
50 Frigorífico Babilônia S/A São Luís 1970 Pecuária p/corte; leite; avicultura 544 30 SUDENE
51 Bacabinha Agropecuária - 1970 Pecuária p/corte 4.000 24 SUDENE
52 Cia Agropecuária do Norte S/A - 1970 Pecuária p/corte 4.303 - SUDENE
53 União Pastoril S/A Fazenda Pindaré Imperatriz 1975 Pecuária de Corte 30.000 55 SUDAM
54 Imperatriz Pecuária Industrial Imperatriz - Pecuária de Corte 30.008 68 SUDAM
55 CAPISA - Carolina Agropastoril e Industrial Imperatriz 1981 Pecuária de Corte e Arroz 6.147 27 SUDAM
56 CIA Agropecuária Santa Inês Pindaré - Pecuária de Corte e Leite 1.480 27 SUDAM
57 Pedra Preta S/A Agropecuária Pindaré 1979 Pecuária de Corte 19.800 67 SUDAM
58 CELIBA - Companhia Agropastoril Eliseu Batista Pindaré 1981 Pecuária de Corte e Arroz 8.300 40 SUDAM
59 Agropecuária Santos Diniz S/A* Itapecuru 1975 Pecuária de Corte - - SUDAM
60 Agropastoril Itapecuru S/A Itapecuru 1967 Pecuária de Corte 3.192 20 SUDAM
61 Fazenda Modelo Itapecuru 1979 Pecuária de Corte 1.771 35 SUDAM
62 PEASA - Pecuária e Agrícola S/A Alto Mearim e Grajaú 1980 Pecuária de Corte, Arroz e Milho 9.800 63 SUDAM
TOTAL (SUDENE) 431.078 2.761 SUDENE
TOTAL (SUDAM) 110.498 402 SUDAM
TOTAL GERAL 541.576 3.163

* Dados não disponíveis na fonte.

Observação: É importante destacar que esses dados não incluem os projetos elaborados no interior da Superintendência de Desenvolvimento do Maranhão (SUDEMA), nem a totalidade dos projetos elaborados na SUDENE e SUDAM, sendo apenas uma amostra.

As mais conhecidas empresas localizadas na área da COMARCO

Contexto: Levantamento elaborado por Alfredo Wagner Berno de Almeida, na obra As Secas do Nordeste e do Maranhão (1981) e reproduzido por Alberto Arcangeli na obra O mito da terra: uma análise da colonização da Pré-Amazônia Maranhense de (1987).

Fonte: ARCANGELI, Alberto. O mito da terra: uma análise da colonização da Pré-Amazônia Maranhense. São Luís: UFMA/PPPG/EDUFMA, 1987, p. 130.

Documento: Empresas Localizadas na Área da COMARCO

Grupo / Empresa Área (ha)
Grupo Bung Born
Sambra S/A Agropecuária Industrial 25.000
Sambra Maranhense S/A 25.000
Sambra Amazônia S/A 25.000
Sambra Nordestina S/A 25.000
Grupo Cacique
Tucumã 25.000
Pindaré 25.000
Guiaracá 25.000
Cacique 25.000
Grupo Pão-de-Açúcar sem informações
Grupo Varig sem informações
Grupo Bamerindus sem informações
Grupo Mesbla 18.658
Grupo Bom Pastor 48.440
Florestal Maracassumé 46.753
Agropecuária Turiaçu 24.961
Grupo Meira Lins
Cia Vale do Rio Sereno 20.672
Exportadora Coelho 52.000
Santa Fé 17.319
Grupo Fernandes
Matary 24.000
Faisa 24.000
Grupo EIT
Citema 24.000
Remasa 9.000
TOTAL GERAL 509.803