Provavelmente você já viu alguma reclamação sobre o preço da carne bovina nos açougues. Além de uma importante fonte de proteína, esse produto faz parte da cultura alimentar do brasileiro. Mas tem enfrentado aumentos constantes, o que tem impactado o consumo dele por famílias de menor renda. Qual será a causa dessas elevações? Seria uma redução na oferta do produto? O que explicaria essa redução? Considerando que o Maranhão é o maior exportador de carne do nordeste, o valor desse produto não deveria ser mais barato?
Até a segunda metade do século XX a produção de carne bovina no Maranhão atendia principalmente ao mercado interno e só exportava produtos excedentes. No entanto, o processo de modernização dependente vivenciado no estado a partir dos anos 1970 mudou profundamente a fisionomia desse setor econômico, que foi bastante beneficiado pela concentração de terra identificada naquele contexto.
O economista Alberto Arcangeli destacou o avanço da pecuária de corte no Maranhão, tanto pela prática da grilagem, quanto por meio da implantação de projetos de colonização entre 1972 e 1980. A partir de um breve levantamento nos projetos agropecuários implantados e financiados pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE) no Maranhão até setembro de 1981 (documento na aba fontes), o autor pôde demonstrar a intensa concentração de projetos voltados a essa atividade.
Portanto os favorecimentos à atividade por meio da facilitação no acesso à terra, crédito barato e incentivos fiscais, permitiram uma intensa dinamização da pecuária bovina no Maranhão. A atividade que antes se limitava a áreas de ocupação mais antiga, passou a desempenhar a partir de então um violento papel expropriador da população camponesa.
Assim a produção pecuária, que antes era livre, gerou uma intensa corrida pelas terras, aprofundando e consolidando a propriedade privada desse meio de produção. Esse processo marca a entrada definitiva de grandes grupos capitalistas, nacionais e estrangeiros na atividade de criação de gado de corte no interior do Maranhão, uma marca do processo de avanço do capital sobre as diversas atividades humanas, característica marcante do contexto do capital-imperialismo.
O gráfico abaixo dá um indício do crescimento dessa atividade:
Rebanho bovino (1960 - 1985)
O gráfico acima indica o intenso crescimento do rebanho bovino no Maranhão entre 1960 e 1985, com elevação mais acentuada, principalmente, na década de 1970. Esse processo será resultado do crescimento da terra disponibilizada a projetos agropecuários desenvolvidos por instituições públicas em parceria com empresas privadas.
A expansão da pecuária bovina no Maranhão ficará evidente ainda quando estabelecemos uma comparação entre essa atividade, e a produção agrícola, principal atividade até a segunda metade da década de 1975, como indica o gráfico a seguir:
Área total destinada às principais atividades econômicas (em hectares)
Logo, embora nos primeiros anos da década de 1970 tenha havido um crescimento das áreas destinadas à agricultura, isso se revertera no quinquênio seguinte, quando há uma extensão significativa das áreas destinadas à pecuária. Esse processo é coincidente com a implementação dos projetos de colonização no estado. Principalmente ao observarmos que esse crescimento dos espaços voltados a pecuária teve como foco principal a pecuária bovina, e principalmente nas áreas com maior extensão de terra. Desse modo, os dados apontam o impacto das políticas de colonização, e principalmente de seu favorecimento à pecuária bovina, pois a redução da área destinada a produção de arroz não se equipara a evolução dos espaços disponibilizados à criação de gado.
Portanto, ao ver alguém reclamar do preço da carne bovina é importante compreender que essa elevação não se trata apenas de uma simples falta de oferta do produto, como em muitos casos querem nos fazer acreditar. Ao contrário disso, ela é resultado de uma intensa transformação vivenciada na estrutura econômica global, em que o alimento deixa de servir a uma necessidade básica e passa a fazer parte de uma dinâmica econômica global desigual, atendendo aos interesses de mercado, principalmente das nações imperialistas.
Por fim, é importante destacar que além do aumento no valor do produto e a expropriação dos camponeses, esses empreendimentos exercem um forte impacto ambiental, tanto na destruição intensa da floresta nativa para a abertura de pastos, quanto pela emissão do gás metano (CH4). Conforme Observatório do Clima do SEEG, em 2024 as emissões do estado do Maranhão totalizaram 129,12 MtCO2e (GWP-AR5). Desse total, 22,80 MtCO2e (17,7%) foram emitidas pelo setor da Agropecuária, 89,50 MtCO2e (69,3%) pelo setor de Mudanças de Uso da Terra e Florestas.
Referências
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ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de; MOURÃO, Laís. Questões agrárias no Maranhão contemporâneo. Manaus: UEA Edições, 2017.
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ARCANGELI, A. O mito da terra: uma análise da colonização da Pré-Amazônia maranhense. São Luís: UFMA/PPG/EDUFMA, 1987.
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CUNHA, R. Ocupação e o desenvolvimento das duas formações socioespaciais do Maranhão. [s.l: s.n.]. Disponível em: https://periodicos.furg.br/cnau/article/download/5525/3432/15636. Acesso em: 13 dez. 2025.
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SEEG – Sistema de Estimativa de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa, Observatório do Clima, acessado em 15 dez. 2026.